Diplomata gosta de charuto, uísque e de driblar os EUA

Sergei Lavrov, chanceler russo, é um dos poucos diplomatas da velha escola

David Herszenhorn e Michael Gordon*, O Estado de S.Paulo - The New York Times

18 de setembro de 2013 | 02h15

O secretário de Estado dos EUA, John Kerry, fez um comentário casual sobre como o presidente Bashar Assad, da Síria, poderia evitar um ataque militar. Sergei Lavrov, o agressivo chanceler russo, estava ao telefone e não deixaria escapar a chance. Assim que os assessores de Kerry tentaram recuar, ele foi a público com uma proposta para desmantelar o arsenal químico sírio, provocando uma resposta dura de Kerry em um telefonema de 14 minutos: "Não vamos recorrer a nenhum jogo".

Uma semana depois, Kerry e Lavrov concluíam o plano em Genebra. Trata-se de um pacto que, para a Casa Branca, pode ser a melhor maneira de manter a proibição de gás tóxico sem recorrer à força militar. Mas é também um plano que, segundo Moscou, atende aos interesses da Rússia e da Síria.

Sob vários aspectos, o trabalho de Lavrov representou o ápice de uma carreira dedicada a tentar obstruir o que o Kremlin há muito tempo considera um perigoso unilateralismo americano. E conseguiu de maneira tão eficiente que recebeu o apelido de Ministro Nyet ("Ministro Não"). Aliás, funcionários de alto escalão do governo americano, como Hillary Clinton e Condoleezza Rice, comentaram que, muitas vezes, acharam irritante ter de tratar com ele.

Como diplomata de Vladimir Putin, Lavrov manobrou para cercear os EUA, evitando um ataque militar unilateral e reafirmando o papel da Rússia. Entretanto, procurou forçar Washington a um diálogo que o Kremlin espera possa estabelecer um precedente, firmando o papel da Rússia em questões mundiais com base não no paradigma da Guerra Fria, mas em sua própria perspectiva, que privilegia a soberania do Estado e o status quo em relação à difusão da democracia.

Lavrov foi por mais de uma década embaixador da Rússia na ONU, onde adquiriu conhecimento dos mecanismos internos do Conselho de Segurança, bem como uma profunda experiência nas iniciativas internacionais sobre desarmamento. "Hoje, ele é um dos diplomatas mais qualificados do mundo", disse Fyodir Lukyanov, editor -chefe di jornal Russia in Global Affairs. "Estamos revivendo a época da autêntica diplomacia".

Lavrov vem se preparando há muito tempo. Formado no Instituto Estatal de Relações Internacionais de Moscou, em 1972, mudou-se para Nova York, em 1981, para trabalhar na ONU, onde ele se tornou conhecido pelo domínio dos temas tratados.

Lavrov, fumante inveterado, ignorou a iniciativa do secretário-geral Kofi Annan de proibir o tabagismo na sede da ONU, dizendo que Annan não era dono do edifício. É um amante de uísque, charutos e esportes de ação, como rafting e esqui.

Em alguns momento, tem ataques de ira. Quando um fotógrafo pediu a Lavrov, a Kerry e ao enviado especial, Lakhdar Brahimi, que posassem para uma foto após reunião em Genebra, Lavrov disse: "Você não dá ordens. Limite-se a captar o momento."

Ao que parece, ele e Kerry se entenderam imediatamente, com jantares tarde da noite, uma bebida perto da lareira e passeios pelo jardim. Para alguns, o machismo de Lavrov e seu estilo cavalheiresco beiram o sexismo, mas admiradores afirmam que tudo não passa de charme.

A ex-chanceler da Áustria, Ursula Plassnik, o definiu como "uma das mais bem informadas personalidades da política externa da aldeia global". Em sua primeira visita a Moscou, Ursula o encontrou esperando por ela diante do Café Pushkin, com um ramalhete de rosas amarelas.

Em Genebra, Lavrov aproveitou para soltar um elogio a uma repórter de TV espanhola: "Linda", disse. Antes da coletiva, brincou com os repórteres pedindo desculpas por tê-los feito esperar. Um repórter questionou se ele havia falado com o governo sírio. Lavrov limitou-se a dizer: "Não, e o senhor?"

*David Herszenhorn e Michael Gordon são jornalistas.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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