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Diplomatas americanos podem ter sido atacados com micro-ondas 

Especialistas e cientistas afirmaram que essas ondas eletromagnéticas são consideradas a principal explicação para casos em Cuba e China

William J. Broad / The New York Times, O Estado de S.Paulo

03 Setembro 2018 | 06h00

WASHINGTON - Durante a Guerra Fria, Washington temia que Moscou tentasse transformar a radiação por micro-ondas em arma secreta de controle da mente. Recentemente, o próprio Exército americano buscou desenvolver armas com micro-ondas que, de modo invisível, emitissem descargas dolorosas, podendo até mesmo incutir palavras nas mentes das pessoas. 

Agora, médicos e cientistas afirmam que essas armas não convencionais podem ser a causa de sintomas e enfermidades incompreensíveis que, a partir do final de 2016, acometeram mais de 30 diplomatas americanos e membros de suas famílias em Cuba e na China. Os incidentes verificados em Cuba provocaram um distanciamento diplomático entre Havana e Washington.

A equipe médica que examinou os 21 diplomatas afetados na ilha comunista não mencionou as micro-ondas em seu relatório detalhado publicado na Revista da Associação Médica Americana (Jama, em inglês), em março. 

Mas Douglas H. Smith, que liderou o estudo e é diretor do Center for Brain Injury and Repair na Universidade da Pensilvânia, declarou em entrevista recente que essas ondas eletromagnéticas hoje são consideradas a principal suspeita e que a equipe está cada vez mais segura de que os diplomatas sofreram danos cerebrais.

"No início todos se mostravam um tanto céticos a respeito, mas agora concordam que existe algo envolvido nos casos", disse Smith, observando que os diplomatas e os médicos se referem ao trauma como uma contusão sem marca.

Ataques com micro-ondas, afirmam alguns especialistas, explicariam melhor os relatos de ruídos dolorosos, doenças e traumas do que outras possíveis causas - ataques sônicos, infecções virais e ansiedade contagiosa.

Em particular, um número crescente de analistas cita um fenômeno misterioso conhecido como Efeito Frey, com base no nome do cientista americano Allan Frey. Há muito tempo Frey descobriu que as micro-ondas podem levar o cérebro a se iludir no caso de sons comuns. As falsas sensações poderiam ser responsáveis por um sintoma característico dos incidentes diplomáticos ocorridos: a percepção de ruídos fortes, incluindo repiques, zumbidos e rangidos. Inicialmente os especialistas citaram esses sintomas como evidência de ataques com armas sônicas.

Membros do JASON, um grupo secreto de cientistas de elite que auxilia o governo federal a avaliar as novas ameaças à segurança nacional, analisa o mistério diplomático e avalia possíveis explicações, incluindo a questão das micro-ondas.

Indagado sobre esta teoria, o Departamento de Estado respondeu que a investigação ainda tem de identificar a causa ou a fonte dos ataques.

A tese das micro-ondas contém muitas perguntas sem resposta. Quem foi o responsável pelos ataques com? O governo russo? O governo cubano? Uma facção renegada cubana simpática a Moscou? Neste caso, onde os agressores obtiveram essas armas não convencionais?

As micro-ondas estão onipresentes na vida moderna. As ondas curtas de rádio acionam radares, são usadas para cozinhar, transmitem mensagens e ligam os celulares às antenas e torres. Elas são uma forma de radiação eletromagnética no mesmo espectro da luz e dos raios X, apenas na extremidade oposta.

Embora a transmissão de radio empregue ondas com 1.500 metros ou mais de comprimento, as micro-ondas têm comprimento de onda variando entre 2 cm e 30 cm. São consideradas inofensivas quando usadas cotidianamente, como em um forno de micro-ondas. Mas seu tamanho diminuto também possibilita uma focalização bem ajustada, como quando as antenas parabólicas transformam raios desorganizados em feixes de raios concentrados.

A dimensão da cabeça humana, dizem os cientistas, faz com que ela se torne uma boa antena para captar sinais de micro-ondas. Frey, que era biólogo, disse ter descoberto o efeito acústico em 1960. Os soviéticos se deram conta disto e furtivamente, e também globalmente, a ameaça cresceu.

Segundo alerta da Agência de Inteligência da Defesa em 1976, a pesquisa soviética no campo das micro-ondas para "percepção do som interno" mostrava uma grande promessa no sentido de "alterar padrões de comportamento de pessoal militar ou diplomático". Washington também buscava novos tipos de armas: em Albuquerque, Novo México, cientistas da Força Aérea tentavam incutir um discurso compreensivo nas cabeças de adversários.

Rússia, China e muitos Estados europeus teriam o know-how para fabricar armas de micro-ondas que podem incapacitar um indivíduo, propagar ruídos e até matar. As potências avançadas, dizem especialistas, conseguiriam objetivos ainda mais sutis como incutir palavras sendo ditas na cabeça das pessoas. Somente as agências de inteligência sabem que países realmente possuem e usam essas armas não familiares.

A arma básica se assemelha a uma antena parabólica. Em tese deve ser um dispositivo manual ou montado numa van, num carro, barco ou num helicóptero. As armas de micro-ondas normalmente só funcionariam em distâncias relativamente curtas  - num espaço de algumas salas ou quarteirões. As mais potentes poderiam desfechar raios a uma distância de vários quilômetros.

As hipóteses

Em janeiro, o impacto arrepiante das micro-ondas no cérebro humano não foi ventilado durante uma audiência do Senado sobre a misteriosa crise na embaixada americana em Havana. 

Mas em um estudo científico realizado no mesmo mês, James C. Lin, da universidade de Illinois, afirmou que as enfermidades associadas a diplomatas provavelmente decorria de raios de micro-ondas.

Em seu documento, Lin afirmou que emissões de micro-ondas de grande intensidade teriam levado os diplomatas a escutar não só ruídos fortes, mas sentir náusea, dores de cabeça e vertigem, com danos no tecido cerebral. Os raios teriam sido emitidos secretamente, atingindo "somente o alvo desejado".

Em fevereiro o ProPublica, numa longa investigação mencionou que os investigadores federais estavam avaliando a teoria das micro-ondas. Em separado citou uma descoberta intrigante. A mulher de um membro da embaixada disse ter olhado para fora de casa quando ouviu sons perturbadores e viu uma van em alta velocidade. Uma antena parabólica poderia facilmente estar instalada num veículo pequeno.

A equipe médica que se encarregou dos diplomatas de Cuba atribuiu os sintomas no estudo do Jama a "uma fonte de energia desconhecida", muito bem direcionada. Algumas pessoas haviam tapado os ouvidos e protegido a cabeça, mas não sentiam que o som havia baixado. Segundo os médicos, os diplomatas aparentavam ter sinais de uma contusão sem ter recebido nenhum golpe na cabeça.

Em maio surgiram notícias de que diplomatas americanos na China também haviam sofrido traumas similares. O secretário de Estado americano, Mike Pompeo, declarou que os detalhes médicos dos dois grupos, o de Cuba e o da China, eram muito similares e bastante congruentes um com o outro. No final de junho o Departamento de Estado retirou pelo menos 11 americanos da China.

Frey, por sua vez, diz ter dúvidas de que os casos serão resolvidos em breve. A novidade da crise é seu caráter esporádico e o contexto estrangeiro, o que torna difícil para os investigadores recolherem pistas e tirar conclusões, muito menos acusar alguém. "Com base no que eu sei, continuará um mistério", afirmou. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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