Diplomatas dos EUA são retirados da China sob suspeita de ataques sonoros

Departamento de Estado afirma que sintomas são similares aos sofridos por funcionários da embaixada americana em Havana, mas governo chinês assegura que sua investigação não encontrou causas para a doença nem pistas de ação deliberada

O Estado de S.Paulo

08 Junho 2018 | 05h00

WASHINGTON - Mark Lenzi, funcionário do Consulado dos EUA em Guangzhou, sul da China, foi enviado de volta aos EUA esta semana com sua família. Mas somente após ele, a mulher e a filha de 3 anos passarem meses sentido intensas dores de cabeça, insônia crônica e outros sintomas similares aos sofridos pelos 24 diplomatas americanos que teriam sido vítimas de ataques sônicos em Cuba.

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O governo dos EUA admitiu ontem que retirou da China “alguns” funcionários de seu consulado na cidade de Guangzhou e suas famílias depois que eles apresentaram sintomas parecidos com os do incidente em Cuba. A porta-voz do Departamento de Estado, Heather Nauert, disse que o governo enviou uma equipe médica a Guangzhou para examinar os funcionários e seus parentes depois que um diplomata ficou doente. 

O funcionário começou a passar mal no fim de 2017, algo que só foi confirmado pelo Departamento de Estado em maio, quando começou a repatriar seus empregados para exames mais especializados. A porta-voz acrescentou que os médicos continuam estudando os sintomas, que seriam consistentes com o ocorrido em Cuba.

O governo chinês destacou ontem que sua investigação não encontrou “causas nem pistas” sobre possíveis ataques deliberados contra diplomatas americanos e assegurou que “sempre cumpre com as convenções internacionais sobre relações diplomáticas que protejam a segurança dos funcionários de outros países”.

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Lenzi e sua família começaram a perceber ruídos em abril de 2017. Ele, mais tarde, os descreveu como “bolinhas de gude quicando e batendo no chão, depois rolando em uma inclinação, com um som estático”. No início, ele e sua mulher pensavam que o vizinho – um membro do Serviço de Relações Exteriores do Consulado dos EUA em Guangzhou – era o responsável. O vizinho negou ter qualquer coisa a ver com isso.

Alguns meses depois, as dores de cabeça começaram – uma dor excruciante que durava dias. Lenzi, sua mulher e sua filha tiveram os mesmos sintomas, que logo incluíram uma crônica insônia. Lenzi disse que pediu ajuda a seus superiores, que não deram muita atenção a suas preocupações. Médicos do consulado prescreveram analgésicos e remédio para dormir e nada fizeram para abordar as causas do problema.

E, então, no mês passado, Lenzi ficou chocado ao saber que seu vizinho tinha sido levado de volta aos EUA para uma avaliação médica minuciosa, que logo determinou que a pessoa estava sofrendo de uma “lesão cerebral traumática”. 

No dia 23, o Departamento de Estado emitiu seus primeiros comentários sobre “um alerta de saúde”, declarando que um não mencionado funcionário do governo americano na China recentemente reportara a ocorrência de “sutis, vagas, mas anormais, sensações de som e pressão” e recomendando que quaisquer pessoas com “problemas médicos desenvolvidos durante um período na China” devem se consultar com um profissional.

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O governo dos EUA também disse não tinha conhecimento de nenhum outro caso – algo contestado por Lenzi. Ele insiste ter informado a embaixada em Pequim e o Departamento de Estado sobre o problema. 

A situação em Guangzhou misteriosamente lembra o episódio ocorrido em Havana, onde, a partir de outubro de 2016, pelo menos 24 funcionários da embaixada americana sofreram problemas cerebrais após serem expostos a uma fonte igualmente misteriosa. Apesar das especulações sobre micro-ondas ou “armas sonoras” contra os diplomatas, os cientistas ainda precisam determinar – ao menos publicamente – o que exatamente causou o dano. Agora, a maioria das pessoas afetadas parece estar recuperada.

As repercussões políticas foram consideráveis. O Departamento de Estado enviou muitos funcionários da embaixada para casa e expulsou 15 diplomatas cubanos dos EUA. 

No dia da revelação do caso em Guangzhou, o secretário de Estado, Mike Pompeu, fez uma comparação explícita com o caso cubano, durante audiência na Câmara: “As indicações médicas são muito semelhantes e totalmente compatíveis com as do que estava ocorrendo com americanos trabalhando em Cuba”.

Mudanças. Este se tornou um momento particularmente preocupante nas relações entre os EUA e a China. O governo do presidente Donald Trump está pressionando Pequim na área comercial, apesar de os chineses o estarem ajudando a levar o líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un, à mesa de negociações. Um caso de possíveis maus-tratos contra diplomatas americanos não poderia chegar em pior hora.

Até agora, Trump estava reduzindo a importância do caso de Guangzhou. Mas isso não poderá ser possível se mais vítimas se apresentarem – e Lenzi, por exemplo, não está disposto a deixar o caso de lado. Ex-integrante da equipe da campanha de John McCain nas primárias em 2008, ele é bem relacionado em Washington e diz que já pediu a renúncia do embaixador dos EUA em Pequim. 

Lenzi diz acreditar que o número de pessoas afetadas será bem maior do que o esperado por Washington. Se ele estiver certo, as relações entre EUA e China podem começar a entrar em um terreno ainda mais instável. / WASHINGTON POST e EFE

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