Diplomatas e dissidentes

O que discorda do regime é um herói, fala a verdade para o poder, mas também incomoda

É COLUNISTA , BILL , KELLER, THE NEW YORK TIMES , É COLUNISTA , BILL , KELLER, THE NEW YORK TIMES , O Estado de S.Paulo

15 Maio 2012 | 03h05

Dissidentes são heroicos. Eles falam a verdade para o poder e nos desafiam a nos tornar melhores. Colocam faces humanas nas vítimas de regimes infames. Suas histórias inspiram os menos valentes. Dissidentes são pessoas difíceis. Eles moralizam. Não transigem. Não sabem calar a boca. Não têm uma visão de conjunto. Todas as qualidades que os tornam dissidentes são consideradas irritantes pelos diplomatas americanos que têm negócios importantes a realizar com países que não compartilham dos valores dos EUA.

O caso do dissidente cego Chen Guangcheng, que por um curto período causou uma confusão na Embaixada dos EUA na China, é uma boa ocasião para contemplarmos a perene tensão entre nosso respeito pelos direitos humanos e nossa necessidade de negociar com regimes não democráticos sobre assuntos como proliferação nuclear, comércio, contraterrorismo e mudança climática. Nossa relação com a China talvez seja o teste mais difícil, pois ela tem um histórico atroz no campo dos direitos humanos, mas detém as chaves para os quebra-cabeças mortais que são a Coreia do Norte e o Irã, sem mencionar a hipoteca dos EUA.

Neste ponto, a situação de Chen parece estar praticamente resolvida. É provável que ele vá para os EUA com a família, mas não sabemos se represálias serão dirigidas aos amigos que o ajudaram na sua ousada fuga da prisão domiciliar. Apesar de alguns tropeços - sugerindo a ânsia para desviar o caso antes de uma importante reunião bilateral - os americanos administraram essa granada diplomática razoavelmente bem. Mas espero que a experiência não os deixe achando que os dissentes causam mais problemas do que valem.

Essa falha com relação aos direitos humanos não tem a ver com um único partido: republicanos e democratas às vezes se dilaceram em razão de desacordos internos quando precisam se manifestar ou intervir num momento em que a liberdade é abusada em lugares distantes. Candidatos com um discurso conciso sobre os direitos humanos frequentemente perdem o entusiasmo quando têm de governar de fato.

Grupos como Human Rights Watch e Anistia Internacional trabalham apaixonadamente para forçar a entrada dos direitos humanos no programa oficial. O trabalho deles é manter as autoridades profundamente envolvidas com o assunto e eles às vezes são tão inflexíveis quanto os dissidentes que defendem.

Mas o mais especializado desses defensores compreende (pelo menos quando os microfones estão desligados) que os EUA atuam no mundo real; que a influência no caso de abusos internos de outros países é limitada; que é mais fácil condenar um regime relativamente inconsequente do que outro que nos oferece bases militares ou petróleo; que humilhar líderes de países como a China pode reforçar o poder dos radicais; que às vezes uma diplomacia silenciosa é mais eficaz do que uma reprimenda pública. Eles sabem tudo isso, mas os idealistas acreditam que uma combinação consistente, paciente, de pressões e incentivos, públicos e privados, pode empurrar um regime autoritário para uma direção civilizada.

Prestígio. Os realistas, cujo filósofo reinante é o mestre da realpolitik, Henry Kissinger, afirmam que usar o invólucro dos direitos humanos pode ser bom para as plateias domésticas, mas impede o avanço em assuntos vitais, especialmente no caso de países como a China. "Os chineses se concentram muito em questões que envolvam seu prestígio", disse Kenneth Lieberthal, especialista em assuntos chineses da Brookings Institution, que trabalhou no governo de Bill Clinton.

Os realistas não são necessariamente indiferentes. Afirmam que podemos influenciar com mais eficácia as autocracias expondo-as aos nossos valores, dando o bom exemplo em casa. É o que basta. Mas eles, que privilegiam as sutilezas no trato com países como a China, surpreendentemente podem agir sem sutilezas neste tema. O histórico do presidente Obama no campo dos direitos humanos é ambivalente - como ocorreu com muitos dos seus predecessores. Clinton interveio para acabar com o genocídio na Bósnia, mas teve de ser arrastado para lá. George W. Bush fez da "agenda da liberdade" a marca da sua administração, mas a autoridade moral do país ficou seriamente comprometida pelos excessos da guerra contra o terror.

Obama tem mostrado pouco interesse em promover dissidentes proeminentes - como o dalai-lama, para citar um caso destacado. Ele demorou para elogiar a Revolução Verde no Irã, em 2009. E o silêncio quanto à dura repressão no Bahrein, que fornece o petróleo e uma base naval para os EUA, é atroz. Por outro lado, Obama não permitiu mais que as agências americanas continuassem usando a tortura; promoveu a liberdade da internet; enviou comandos especiais para caçar Joseph Kony, o açougueiro louco da África Central; foi cauteloso no caso da Primavera Árabe, mas no final contribuiu para a saída de Hosni Mubarak no Egito e apoiou a oposição na Líbia.

A primeira coisa certa que os EUA fizeram no caso de Chen foi oferecer proteção. Diante da notoriedade e bravura do dissidente cego, isso era óbvio, mas os americanos não o deixaram apenas entrar, eles o esconderam na embaixada, protegendo-o contra a segurança chinesa e imediatamente formaram uma equipe plenamente conhecedora do caso para enfrentar os chineses. Foi uma mostra flagrante do que podemos representar. Quando Chen declarou que estava determinado a permanecer na China, o Departamento de Estado negociou um acordo realmente extraordinário com os chineses, incluindo um acerto de que ele seria autorizado a viver com mais liberdade. (Se os chineses cumpririam o acordo é uma pergunta excelente; não sabemos por que Chen mudou de ideia). Os EUA forneceram celulares a Chen para ele manter contato com seguidores e telefonar para Washington. E diante da resolução americana os chineses acabaram permitindo que tudo isso ocorresse.

Alguns fatores colaboraram com Chen. A chancelaria chinesa, que parece ter vencido um debate interno com os serviços de segurança sobre a sorte do dissidente, tinha fortes argumentos para assumir o papel do bom policial. Em primeiro lugar, as autoridades locais que violaram a lei chinesa podem ser acusadas de perseguição. Em segundo, enviar Chen para os EUA significa uma boa saída para uma voz desafiadora. Embora na era da mídia social, não está mais claro que o exílio significa falta de conexão. A aventura de Chen foi um fenômeno na versão chinesa do Twitter, incluindo imagens de chineses comuns prestando uma homenagem silenciosa ao dissidente cego, postando fotos de si com óculos escuros.

Os discípulos de Kissinger alegam que precisamos manter fora da mesa estes casos individuais de dissidentes, de modo a impedir que eles provoquem um impasse em assuntos de mais peso. Mas a China também tem interesse nesses assuntos mais importantes. Desta vez, os chineses mostraram-se dispostos a se curvar para evitar que um drama embaraçoso se tornasse um obstáculo.

O professor Andrew Nathan, da Universidade Colúmbia, diz que, quando os EUA procuram dar menos importância aos direitos humanos, é reforçada a opinião de muitos chineses de que nosso país está em declínio, avaliando erroneamente nossa seriedade. O caso Chen, ao contrário, ilustra o fato de que, às vezes, quando nos mantemos firmes, conseguimos impor nossa diplomacia e autorrespeito. "É um bom realismo no estilo Kissinger você se mostrar forte na defesa de seus próprios valores", disse Nathan. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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