Cody O'Loughlin/The New York Times
Cody O'Loughlin/The New York Times

Diplomatas e espiões americanos enfrentam governo Trump por suspeitas de ataques

Funcionários americanos na China, Cuba e Rússia dizem que as agências dos Estados Unidos estão escondendo a verdadeira extensão dos episódios e deixando colegas vulneráveis a ações hostis no exterior

Ana Swanson, Edward Wong e Julian E. Barnes, The New York Times, O Estado de S.Paulo

27 de outubro de 2020 | 09h00

WASHINGTON - O estranho som veio à noite: um estalo, feito uma bola de gude batendo no chão do apartamento de cima.

Mark Lenzi e sua esposa tinham tontura, dores de cabeça e problemas para dormir. Seus filhos viviam acordando com o nariz sangrando – sintomas que eles achavam que podiam ser causados pela poluição de Guangzhou, China, onde Lenzi trabalhava para o Departamento de Estado americano. Mas a poluição do ar não poderia explicar a súbita perda de memória, até mesmo o esquecimento de nomes de ferramentas de trabalho.

O que começara como sons e sintomas estranhos entre mais de uma dúzia de funcionários americanos e seus familiares na China em 2018 logo se tornou um mistério diplomático que abrange vários países e envolve especulações sobre ataques estrangeiros e armas secretas de alta tecnologia.

Uma das maiores questões se centra em se as autoridades do governo Trump acreditam que Lenzi e outros diplomatas na China experimentaram a mesma aflição misteriosa que acometeu dezenas de diplomatas e espiões na embaixada americana em Cuba nos anos de 2016 e 2017, flagelo que veio a ser conhecido como Síndrome de Havana. Empregados do governo americano nos dois países relataram ter ouvido sons estranhos, seguidos por dores de cabeça, tonturas, visão turva e perda de memória.

Mas o tratamento dado pelo governo aos episódios foi radicalmente diferente. O Departamento de Estado, que supervisionou os casos, produziu avaliações inconsistentes sobre os pacientes e eventos, ignorou diagnósticos de médicos externos e ocultou informações básicas do Congresso, descobriu uma investigação do The New York Times.

Em Cuba, o governo Trump retirou a maior parte de seu pessoal da embaixada e emitiu um alerta de viagem, dizendo que diplomatas americanos haviam sofrido “ataques direcionados”. O presidente Donald Trump expulsou 15 diplomatas cubanos de Washington e iniciou uma análise independente, embora Cuba negue qualquer envolvimento.

O governo adotou uma abordagem mais branda com a China. Em maio de 2018, o Secretário de Estado Mike Pompeo, que era o diretor da CIA durante os eventos em Cuba, disse aos parlamentares que os detalhes médicos de um oficial americano que adoecera na China eram “muito semelhantes e inteiramente consistentes” com a síndrome de Cuba. O governo evacuou mais de uma dúzia de funcionários federais e alguns de seus familiares.

Mas o Departamento de Estado logo recuou, caracterizando o que acontecera na China como “incidentes de saúde”. Enquanto os funcionários de Cuba foram colocados em licença administrativa para reabilitação, os da China inicialmente tiveram de usar atestados médicos e licenças sem vencimento, dizem alguns funcionários e seus advogados. E o Departamento de Estado não abriu uma investigação sobre o que aconteceu na China.

O governo falou pouco sobre os acontecimentos na China e minimizou a ideia de que uma potência hostil poderia ser a responsável. Mas episódios semelhantes foram relatados por oficiais da CIA que visitaram as estações da agência no exterior, de acordo com três agentes e ex-agentes e outras pessoas familiarizadas com os eventos.

Entre essas estações se encontra Moscou, onde Marc Polymeropoulos, oficial da CIA que ajudou a conduzir operações clandestinas na Rússia e na Europa, experimentou o que acredita ter sido um ataque em dezembro de 2017. Polymeropoulos, que tinha 48 anos na época, sofreu forte vertigem em seu quarto de hotel em Moscou e, tempos depois, desenvolveu enxaquecas debilitantes que o forçaram a se aposentar.

Os casos envolvendo agentes da CIA, nenhum dos quais relatados publicamente, estão aumentando as suspeitas de que a Rússia realizou ataques em todo o mundo. Alguns analistas seniores da Rússia na CIA, funcionários do Departamento de Estado e cientistas externos, bem como várias das vítimas, veem a Rússia como o culpado mais provável, dados seu histórico com armas que causam lesões cerebrais e seu interesse em desestabilizar as relações de Washington com Pequim e Havana.

O diretor da CIA não se convenceu e os chefes do Departamento de Estado dizem que não chegaram a um acordo sobre uma causa.

Os críticos dizem que as disparidades na forma como os funcionários foram tratados decorrem de considerações diplomáticas e políticas, entre estas o desejo do presidente de fortalecer as relações com a Rússia e fechar um acordo comercial com a China.

Diplomatas chineses começaram a relatar sintomas estranhos na primavera de 2018, enquanto as autoridades americanas enviadas ao país tentavam persuadir seus colegas chineses a assinar o acordo comercial que Trump prometera fechar. O presidente também esperava ajuda de Pequim para concluir negociações nucleares com a Coréia do Norte e elogiava constantemente Xi Jinping, o líder autoritário da China.

De acordo com meia dúzia de autoridades americanas, os chefes do Departamento de Estado perceberam que seguir um curso de ação semelhante ao que se adotara em Cuba – incluindo a evacuação de missões na China – poderia prejudicar as relações diplomáticas e econômicas.

Com Cuba, Trump procurou reverter a détente do presidente Barack Obama. Jeffrey DeLaurentis, chefe da missão da embaixada dos Estados Unidos em Havana durante os eventos, disse que a decisão do governo Trump de retirar os funcionários “se encaixara fortuitamente em seu objetivo em Cuba”.

Os que fugiram da China passaram mais de dois anos lutando para obter os mesmos benefícios concedidos às vítimas de Cuba e a outros agentes atacados por potências estrangeiras. As batalhas complicaram sua recuperação e geraram retaliações governamentais que podem ter prejudicado permanentemente suas carreiras, de acordo com entrevistas com mais de trinta funcionários do governo, advogados e médicos.

Os parlamentares dos Estados Unidos criticaram o que chamam de sigilo e inação do Departamento de Estado e estão pressionando a agência para divulgar um estudo que recebeu em agosto da Academia Nacional de Ciências, a qual examinou as possíveis causas dos episódios.

“Essas sequelas e o subsequente tratamento pelo governo americano têm sido um pesadelo para esses dedicados servidores públicos e para suas famílias”, disse a senadora Jeanne Shaheen, democrata de New Hampshire. “É óbvio que um adversário dos Estados Unidos teria muito a ganhar com a desordem, a angústia e a cisão que se seguiram”.

O Dr. David A. Relman, professor da Universidade de Stanford que preside o comitê da Academia Nacional de Ciências que examinou os casos, disse que era “desanimador e imensamente frustrante” que o Departamento de Estado houvesse se recusado a compartilhar o relatório com o público ou com o Congresso “por razões que nos escapam”.

Em um comunicado, o departamento disse: “A segurança dos funcionários dos Estados Unidos, de suas famílias e dos cidadãos americanos é nossa maior prioridade. O governo dos Estados Unidos ainda não determinou uma causa ou um ator”.

Lenzi disse que processou o departamento por discriminação a deficiência, e o Gabinete de Conselho Especial dos Estados Unidos está conduzindo duas investigações sobre a conduta do Departamento de Estado.

O Gabinete do Conselho Especial não quis comentar. Mas, em uma carta de 23 de abril lida pelo Times, autoridades do Conselho Especial disseram que os investigadores “haviam encontrado uma probabilidade substancial de irregularidades” por parte do Departamento de Estado, embora a investigação continue.

“É um acobertamento deliberado de alto nível”, disse Lenzi. “Eles nos deixaram na chuva sem guarda-chuva”.

A situação foi complicada pelo fato de que agentes e cientistas americanos ainda discutem se os sintomas resultaram de um ataque.

Muitos diplomatas, agentes da CIA e cientistas suspeitam que uma arma que produz radiação de microondas danificou os cérebros das vítimas. Mas alguns cientistas e autoridades do governo argumentam que foi uma doença psicológica que se espalhou no ambiente estressante das missões estrangeiras. Alguns apontam para agentes químicos, como pesticidas.

O governo Trump não esclareceu sua opinião, nem disse exatamente quantas pessoas foram afetadas.

Pelo menos 44 pessoas em Cuba e 15 na China foram avaliadas ou tratadas no Centro para Lesão e Reparo Cerebral da Universidade da Pensilvânia. Outras foram para outro lugar. Pelo menos 14 cidadãos canadenses em Havana afirmam ter sofrido sintomas semelhantes.

Os médicos da Universidade da Pensilvânia se recusaram a discutir detalhes, mas rejeitaram a ideia de uma doença psicológica, dizendo que os pacientes que eles trataram sofreram uma lesão cerebral de uma fonte externa.

Alguns altos funcionários do Departamento de Estado e ex-oficiais de inteligência disseram acreditar que a Rússia teve participação. Os agentes de inteligência do país semearam a violência em todo o mundo, envenenando inimigos na Grã-Bretanha e alimentando ataques a soldados americanos no Afeganistão.

Durante a Guerra Fria, a União Soviética bombardeou a embaixada dos Estados Unidos em Moscou com microondas. Em um documento de 2014, a Agência de Segurança Nacional (NSA, na sigla em inglês) disse que tinha informações sobre um país hostil usando uma arma de microondas de alta potência para “inundar os aposentos de um alvo com microondas”, causando danos ao sistema nervoso. O nome do país era confidencial, mas pessoas familiarizadas com o documento disseram que se tratava da Rússia.

Vários dos casos contra a CIA afetaram oficiais graduados que estavam viajando ao exterior para discutir com agências de inteligência parceiras planos para conter as operações secretas russas, de acordo com duas pessoas familiarizadas com o assunto. Alguns analistas da CIA acreditam que Moscou estava tentando atrapalhar esse trabalho.

Polymeropoulos não quis falar sobre suas experiências em Moscou, mas criticou a maneira como o governo dos Estados Unidos lidou com seus empregados que sofreram os ataques. Ele está pressionando a agência a permitir que ele vá ao Centro Médico Militar Nacional de Walter Reed, o hospital que atendeu alguns dos afetados em Cuba.

Algumas autoridades importantes dos Estados Unidos insistem em ver mais evidências antes de acusar a Rússia. Gina Haspel, diretora da CIA, reconheceu que Moscou poderia ter a intenção de prejudicar seus agentes, mas não está convencida de que os russos foram os responsáveis ou de que os ataques de fato ocorreram, disseram dois funcionários americanos.

A primeira pessoa acometida na China, uma funcionária do Departamento de Comércio chamada Catherine Werner, que morava ao lado de Lenzi, sentiu vômitos, náuseas, dores de cabeça e tontura por meses antes de ser enviada de volta aos Estados Unidos, em abril de 2018.

De acordo com uma delação feita por Lenzi, o Departamento de Estado só tomou medidas depois que a mãe de Werner, uma veterana da Força Aérea, usou um dispositivo para registrar altos níveis de radiação de microondas no apartamento da filha. A mãe também teve sintomas.

Em maio daquele ano, as autoridades americanas realizaram uma reunião para tranquilizar os oficiais dos Estados Unidos em Guangzhou, dizendo que a doença de Werner parecia ser um caso isolado. Mas Lenzi, um oficial de segurança diplomática, escreveu em um memorando à Casa Branca que seu supervisor insistia em usar equipamento de baixa qualidade para medir as microondas no apartamento de Werner, chamando-o de “exercício de mera confirmação”.

“Eles não encontraram nada porque não queriam encontrar nada”, disse Lenzi. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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