Diplomatas líbios na ONU pedem intervenção internacional no país

Vice-embaixador da Líbia no órgão classificou violência contra manifestantes como 'genocídio'.

BBC Brasil, BBC

21 de fevereiro de 2011 | 15h33

Manifestantes pedem renúncia de Khadafi, no poder desde 1969

A delegação de diplomatas da Líbia na ONU pediu, nesta segunda-feira, uma intervenção internacional contra a onda de violência no país.

O vice-embaixador da Líbia no órgão fez também um apelo por proteção aos cidadãos contra o que definiu como "genocídio" patrocinado pelo governo líbio.

Ele também pediu que as Nações Unidas interditassem o espaço aéreo sobre a capital líbia, Trípoli, onde relatos não confirmados dizem que pelo menos um avião de combate disparou contra manifestantes.

O ministro das Relações Exteriores britânico, William Hague, afirmou nesta segunda-feira que há informações de que o coronel Muamar Khadafi deixou seu país rumo à Venezuela, em meio aos protestos populares que pedem a sua saída do poder.

"Eu não tenho informações que afirmem que ele está (a caminho da Venezuela), mas eu vi algumas informações que sugerem que ele está a caminho (da Venezuela) neste momento", disse Hague a jornalistas na capital da Bélgica, Bruxelas.

Um alto funcionário do governo venezuelano, no entanto, negou que líder líbio será recebido no país, ao afirmar que não houve comunicação com Trípoli.

"Não recebemos nenhum pedido de asilo", disse o funcionário do governo venezuelano à BBC Brasil.

Paradeiro de Khadafi

A correspondente da BBC em Argel Chloe Arnold citou relatos de um repórter confiável que foi à casa de Khadafi em Trípoli nesta segunda-feira.

Ele disse que havia poucos seguranças nos portões e que, aparentemente, não havia ninguém na casa.

Uma fonte informou ao correspondente da BBC no Cairo, Jon Leyne, que há indícios de que, por causa dos protestos, Khadafi possa ter saído da capital, Trípoli, em direção ao sul da Líbia.

Os indícios são comboios de veículos vistos deixando a capital e uma movimentação acima do comum no aeroporto de Trípoli.

Para Leyne, é um indicativo de que Khadafi não pretende abandonar seu país, mas retirar-se da capital, para onde os protestos migraram na noite de domingo e na manhã desta segunda-feira.

Também há dúvidas quanto a se algum país receberia o líder líbio caso ele decidisse se exilar.

Diálogo

Também nesta segunda-feira, a chanceler da União Europeia, Catherine Ashton, voltou a condenar a violência no Bahrein e na Líbia.

Após um encontro de ministros de Relações Exteriores europeus, Ashton disse que a Líbia deveria respeitar os direitos dos cidadãos de protestarem pacificamente e pediu diálogo.

"Condenamos a repressão contra os manifestantes e lamentamos a violência e a morte de civis. Pedimos o fim imediato do uso da força contra os manifestantes e pedimos a todas as partes que se contenham", disse.

"As aspirações legítimas e demandas das pessoas por reformas devem ser consideradas em um diálogo aberto."

Ashton disse ainda que viajaria ao Egito nos próximos dias para encorajar as autoridades locais a serem mais transparentes sobre o avanço em direção à democracia.

"Durante nossas conversas eu pedirei que eles façam progresso nas mudanças constitucionais que pavimentam o caminho para eleições parlamentares e presidenciais livres e justas."

A chanceler garantiu que a Europa ajudará o Egito no processo e não tentará impor soluções.

Embaixadores

Nesta segunda-feira, o embaixador líbio na Índia, Ali Al-Issawi, disse à BBC que decidiu deixar o cargo em protesto contra o uso de violência por parte do governo e afirmou que mercenários estrangeiros foram mobilizados para atuar contra cidadãos líbios.

O embaixador na Liga Árabe, Abdel Moneim Al-Honi, disse a jornalistas, no Cairo, que está se unindo à revolução, enquanto o embaixador líbio na China também renunciou.

De acordo com o jornal Quryna, o ministro da Justiça, Mustafa Abdal Khalil, também renunciou em protesto contra a violência no país.

O regime comandado por Muamar Khadafi lançou uma dura campanha de repressão contra os protestos.

Segundo dados de organizações médicas e de direitos humanos, mais de duzentas pessoas teriam morrido desde o início, na semana passada, das manifestações que pedem que Khadafi renuncie após passar mais de 40 anos no poder.

Tensão nas ruas

Testemunhas afirmam que manifestantes que saíram às ruas da capital, Trípoli, na noite de domingo, foram atacados por forças de segurança com armas de fogo e gás lacrimogêneo.

Nesta segunda-feira, há relatos de que as ruas da cidade estavam tranquilas, com forças do governo patrulhando a Praça Verde, um local que vem sendo usado pelos manifestantes.

Houve sons de tiros nas primeiras horas da manhã, e bombeiros tentavam controlar um incêndio em um prédio do governo no centro da cidade, a Assembleia do Povo, que foi incendiada por manifestantes.

Benghazi, a segunda cidade do país, estaria nas mãos de manifestantes. Segundo testemunhas, a polícia fugiu de Zawiyah, a oeste da capital, e a cidade teria caído no caos. Há relatos de que muitos moradores estariam fugindo para a vizinha Tunísia.

O filho de Khadafi Saif Al-Islam advertiu que uma guerra civil poderia eclodir no país. Em um longo pronunciamento pela TV, ele prometeu reformas políticas, mas afirmou também que o regime "lutaria até a última bala", contra "elementos dissidentes".

Al-Islam admitiu, entretanto, que as cidades de Benghazi e Al-Bayda, no leste do país, tinham caído nas mãos dos manifestantes.

*colaborou Claudia Jardim, de Caracas para a BBC Brasil BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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