Kevin Lamarque/Reuters
Kevin Lamarque/Reuters

Diplomatas temiam que Trump usasse ajuda militar à Ucrânia para benefício político

Primeiro depoimento sobre impeachment mostra que diplomata vinculou encontro entre Trump e Zelenski a investigação de rivais políticos do americano

Redação, O Estado de S.Paulo

04 de outubro de 2019 | 12h07

WASHINGTON - O ex-enviado especial dos Estados Unidos para a Ucrânia Kurt Volker entregou à comissão da Câmara dos Deputados que estuda o impeachment do presidente Donald Trump mensagens de texto trocadas com outros diplomatas nas quais ele demonstra o temor de que o presidente tenha congelado ajuda militar à Ucrânia para obter ganhos políticos. 

Volker, que deixou o cargo após o início das investigações sobre o impeachment, é a primeira testemunha ouvida pela comissão que pode abrir o inquérito contra Trump.

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O presidente é investigado por pedir ao presidente ucraniano, Volodmir Zelenski, para investigar os negócios de Hunter Biden, filho do pré-candidato democrata à presidência Joe Biden, na Ucrânia. Mais cedo, nesta sexta-feira, 4, a Ucrânia reabriu a investigação sobre o período em que Hunter participou da diretoria da empresa de gás Burisma. 

As mensagens de texto datam do começo de setembro e foram trocadas entre William B. Taylor Jr., o principal diplomata americano na Ucrânia, Gordon Sunderland, embaixador americano na União Europeia e o próprio Volker. 

"Como eu disse no telefone, é loucura segurar ajuda militar em troca de ajuda com uma campanha política", disse Taylor. 

Nove horas de depoimento

Na resposta, Sondland disse ter encontrado o melhor caminho para destravar a ajuda. Mas ressalta que não houve vinculação da entrega do dinheiro a nada e pede que a conversa seja retomada por via telefônica em vez de mensagens de aplicativo. 

Os deputados ouviram Volker por mais de nove horas na quinta-feira. Na data em que as mensagens foram trocadas, já havia relatos na imprensa de que o advogado pessoal de Trump, Rudy Giuliani, estava pressionando os ucranianos a investigar Biden. 

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O depoimento de Volker revelou ainda que diplomatas acreditavam que Trump não se reuniria com Zelenski a não ser que o presidente ucraniano concordasse em dar início a investigações. 

"Ouvi da Casa Branca que, se o presidente Zelenski convencer Trump que irá investiga e ir a fundo ao que aconteceu em 2016, conseguiremos marcar uma data para a visita a Washington", disse Volker ao assessor de Zelenski Andrei Yermak antes do telefonema no qual Trump mencionou a família Biden. 

Republicanos não veem indício de irregularidade

Deputados republicanos disseram que o depoimento de Volker não incrimina Trump e não há indícios de que a ajuda militar ou um encontro entre os dois presidentes tenham sido condicionada a investigação de rivais políticos do americano. 

"Os fatos minam a narrativa usada nas ambições do impeachment", disse o deputado Jim Jordan.

Trump pede que China investigue Biden

Na quinta-feira,  Trump pediu publicamente à  China investigar os negócios de Hunter Biden.

"A China deve iniciar uma investigação sobre Biden. O que aconteceu na China é tão ruim quanto o que aconteceu na Ucrânia", disse Trump aos jornalistas na Casa Branca, antes de seguir para a Flórida onde participará de um ato de campanha.

O republicano afirmou que certamente poderia pedir ao presidente chinês, Xi Jinping, que iniciasse uma investigação sobre a atividade de Hunter Biden no país.

"Eu não fiz isso, mas certamente é algo em que podemos começar a pensar", insistiu o presidente. Trump também recomendou a Zelenski para que inicie uma investigação sobre o comportamento de Biden. /NYT e WASHINGTON POST

 

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