Charlie Neibergall/AP
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Cúpula democrata admite erro e pede revisão de votos em prévias de Iowa

Três dias após a votação, apuração dos 170 mil votos ainda não terminou e mais de 100 distritos relataram discrepâncias; problema central foi no aplicativo usado para transmitir os dados

Redação, O Estado de S.Paulo

06 de fevereiro de 2020 | 16h40
Atualizado 06 de fevereiro de 2020 | 22h01

DES MOINES - As prévias democratas de Iowa, pontapé inicial para a escolha do candidato à Casa Branca, tornaram-se um pesadelo para o partido e colocaram em dúvida o sistema eleitoral americano como um todo. Três dias após a votação, a apuração de 170 mil votos não terminou. Segundo análise desta quinta-feira, 6, publicada pelo New York Times, mais de 100 distritos relataram resultados inconsistentes ou discrepâncias entre número de votos e delegados eleitos. 

Hoje, Tom Perez, o presidente do Comitê Nacional Democrata (DNC), perdeu a paciência e pediu a revisão dos resultados da votação em Iowa. “Basta. Para garantir a confiança das pessoas nos resultados, peço ao Partido Democrata de Iowa para começar imediatamente uma revisão”, disse. 

Segundo dirigentes nacionais do partido, a revisão não seria uma recontagem completa, mas um pente-fino nas atas das seções, formulários e resultados tabulados à mão. Já o diretório estadual de Iowa respondeu, dizendo que está preparado para o trabalho, mas apenas caso algum candidato solicite a revisão.

As prévias de Iowa não foram vítimas de hackers ou qualquer tipo de fraude intencional. O problema central foi no aplicativo usado para transmitir os dados. O software, que não havia sido testado de maneira adequada, gravava os resultados corretamente, mas transmitia números diferentes para a central do partido – segundo funcionários, em razão de um “erro de programação”. 

A Veracode, empresa de segurança de Massachusetts, divulgou hoje o resultado de uma análise do aplicativo a pedido do site de jornalismo investigativo ProPublica. A conclusão foi que o software não tinha mecanismos básicos de proteção de transmissão, o que permite que os dados sejam interceptados e até alterados. 

O naufrágio dos democratas de Iowa levou o professor Zeynep Tufekci, especializado em tecnologia digital, da Universidade da Carolina do Norte, a escrever um artigo na revista The Atlantic intitulado “Quem precisa dos russos?”.

Sistema eleitoral na berlinda

Scott Rosenberg, editor de tecnologia do site Axios, também criticou o desastre tecnológico de Iowa no momento em que os EUA lutam para passar uma imagem de estabilidade e confiança no sistema eleitoral, que vem sendo questionado desde 2016, quando os russos invadiram servidores do Partido Democrata e montaram uma rede de perfis falsos para influenciar o resultado da eleição. 

Para complicar ainda mais, os americanos não têm um órgão eleitoral centralizado, como o TSE no Brasil. Nos EUA, são mais de 3 mil condados, cada um utilizando um sistema diferente e reportando os resultados para 50 órgãos estaduais que trabalham também de maneira independente. 

Alguns especialistas, como David Becker, diretor do Centro de Pesquisa e Inovação Eleitoral, veem nisso uma vantagem. “O fato de serem milhares de eleições nos dá certa proteção contra ciberataques, porque é muito difícil hackear 8 mil sistemas diferentes”, disse.

Outros, no entanto, enxergam na descentralização um problema. Bruce Schneier, da Harvard Kennedy School, afirma que os órgãos locais estão menos aparelhados para enfrentar ameaças externas. “Rússia contra Louisiana não é uma briga justa”, disse.

“Nos EUA, existem muitos tipos diferentes de urnas, cédulas e máquinas empregadas em cada um dos Estados. E não há um esforço nacional conjunto para remediar essas questões”, disse o analista Colton Carpenter, na Harvard Political Review. “Isso significa que, em vez de termos 50 Estados trabalhando juntos para criar uma eleição nacional segura, os EUA têm 50 Estados trabalhando separadamente para criar 50 eleições seguras. Se um Estado falha, as eleições estão comprometidas.”

Eleitores se reúnem e debatem voto

As primárias no Estado de Iowa funcionam no sistema de caucus. Grupos de eleitores se reúnem em locais como igrejas, escolas e ginásios e debatem quem irão apoiar. Feita a escolha, eles se dirigem a um espaço indicado com o nome do escolhido. Então, um representante do partido conta quantas pessoas apoiam aquele candidato específico.

Os números são colocados em uma planilha. Os candidatos que não obtiverem 15% dos votos em uma primeira fase são eliminados, mas os eleitores que escolheram apoiá-los podem optar por um novo nome na segunda e última etapa da votação.

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O problema com o aplicativo foi corrigido, e os resultados estão sendo divulgados parcialmente. Com 97% das circunscrições apuradas, o ex-prefeito Pete Buttigieg e o senador Bernie Sanders estão praticamente empatados na liderança, com 26% do total de delegados em disputa em Iowa.

Na sequência, a senadora Elizabeth Warren ocupa o terceiro lugar, com 18,2%, seguida do ex-vice-presidente Joe Biden, com 15,8%, e da também senadora Amy Klobuchar com 12,2%.

Todos os pré-candidatos estão fazendo campanha na segunda parada da batalha eleitoral, no Estado de New Hampshire, que vota nas primárias na próxima terça-feira.

Os problemas na apuração em Iowa estão sendo usados pelos republicanos e pelo presidente do país, Donald Trump, candidato à reeleição, para ironizar a capacidade dos democratas de governarem o país. /EFE, AP e NYT  

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