Jose Sena Goulao/Efe
Jose Sena Goulao/Efe

Direita derrota socialistas em Portugal

Oposição vence as eleições legislativas e terá a missão de gerenciar um país mergulhado na crise e com um alto índice de desemprego

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

06 de junho de 2011 | 00h00

ENVIADO ESPECIAL / LISBOA

Portugal terá um novo governo de centro-direita. Seguindo tendência constatada em grande parte da Europa, os portugueses escolheram ontem um primeiro-ministro liberal para gerenciar o país em sua mais grave crise dos últimos anos. Pedro Passos Coelho, líder do Partido Social Democrata (PSD) foi eleito com uma margem surpreendente: 38,6% dos votos válidos, superando em 10 pontos o atual chefe de governo, José Sócrates, do Partido Socialista (PS).

Atrás vieram o bloco de direita CDS-PP, em terceiro lugar, com 11,7% dos votos, e duas agremiações de esquerda: a coligação CDU, de comunistas e verdes, com 7,9% do eleitorado, e o Bloco de Esquerda (BE), com 5,2%. O resultado, ainda parcial, indica a formação de um governo de coalizão entre o PSD e o CDS-PP, aliança confirmada na noite de ontem pelo futuro premiê e também pelo líder da direita, Paulo Portas.

Apesar da formação de uma frente de centro-direita, à noite, no Hotel Sana, centro de Lisboa, onde a cúpula do PSD estava reunida à espera da contagem dos votos, líderes do partido reafirmaram que não descartam chamar o PS para a coalizão - um recado de unidade nacional diante da crise.

Questionado, Passos Coelho disse que o país não compreenderia "uma salada russa no governo", mas não foi taxativo. "O PSD não deixará de dialogar com todos os partidos e com o PS em particular", disse.

Em seu discurso, Passos Coelho reconheceu que Portugal "vive um período difícil", prometeu um governo de rigor fiscal, com redução do tamanho do Estado - o futuro premiê defende um gabinete de apenas 10 ministérios, frente aos atuais 17 - e demonstrou confiança na perspectiva de que o país recobrará a prosperidade dentro de dois ou três anos. "Os anos que nos esperam exigirão muita coragem", disse, pedindo paciência à população.

Ao Estado, o futuro primeiro-ministro reiterou sua disposição de cumprir todos os acordos firmados em troca no plano de socorro de ? 78 bilhões, assinado pelo governo demissionário com a UE, com o Banco Central Europeu (BCE) e com o Fundo Monetário Internacional (FMI). "A mensagem ao exterior é de que não deixaremos de cumprir todas as nossas obrigações."

Passos Coelho disse ainda que confia na parceria entre Portugal e os países de língua portuguesa para retomar o crescimento. "Creio que a nossa relação com Brasil, Angola e outros países que falam português pode ser muito importante para o futuro próximo", destacou, sem dar detalhes sobre projetos.

Alienação. A apuração também revelou o tamanho da insatisfação dos portugueses com o governo de Sócrates, que havia assumido o poder em 2005, sendo reeleito em 2009. Considerado "imbatível" há poucos meses, ele assumiu a responsabilidade pela derrota esmagadora nas eleições de ontem. Em discurso emocionado, o atual primeiro-ministro parabenizou Passos e o CDS, anunciou sua demissão da chefia do PS e comunicou seu afastamento da vida pública. "Essa derrota eleitoral é minha e quero assumi-la."

Sócrates pediu à direção do partido a convocação de um congresso extraordinário para definir a escolha de novos líderes. "Quero dar espaço ao partido para discutir livremente seu futuro", afirmou. "Deixo a primeira linha da atividade política e não pretendo ocupar qualquer cargo nos próximos tempos."

Apesar da vitória do PSD, Passos Coelho não obteve o maior porcentual nas eleições de ontem. Acima dele esteve o total de abstenções: 42,1%. Em 1976, a abstenção havia sido de 15%, crescendo para 40,32% em 2009, até então um recorde negativo na Europa.

O registro histórico de abstenções em 2011 demonstra a indiferença do povo português pelos partidos políticos e por seus líderes. "Já deixei de votar há muito tempo porque não acredito mais nos políticos", lamentou José Vitório, 57 anos, funcionário público aposentado.

Ontem, ele repousava em um banco de praça em frente a uma seção eleitoral. "O português está completamente desiludido. Mas os políticos deveriam analisar os motivos de tanta insatisfação", reclamou.

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