Direita deverá crescer no Parlamento Europeu

Maior crise econômica desde a 2ª Guerra favorece discurso nacionalista e evidencia falta de propostas dos partidos de esquerda, dizem analistas

Andrei Netto, O Estadao de S.Paulo

30 de maio de 2009 | 00h00

A poucos dias das eleições que renovarão 736 cadeiras no Parlamento Europeu, os partidos de direita estão em franca ascensão no Leste e lideram nas cinco nações mais importantes da União Europeia. Pesquisas de opinião realizadas nos 27 países-membros indicam que o Partido Popular Europeu (PPE) tende a ampliar seu eleitorado na votação que ocorrerá entre 4 e 7 de junho. Enquanto os conservadores reduzem o espaço do Partido Socialista Europeu (PSE), a extrema direita explora o racismo e o "euroceticismo" para crescer.A conjuntura econômica adversa - a Europa atravessa sua maior recessão desde o fim da 2ª Guerra -, tema que poderia beneficiar os partidos de esquerda, vem gerando o efeito contrário nos maiores países, a julgar pelas pesquisas de opinião. Na França, onde os socialistas obtiveram 31 cadeiras em 2005 (contra 17 dos conservadores), a União por um Movimento Popular (UMP), partido de Nicolas Sarkozy, tem 26% da preferência, enquanto o Partido Socialista (PS) perde terreno e soma 19%. Na Espanha, a reversão também acontece. O Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), do premiê José Luiz Rodríguez Zapatero, hoje com 24 assentos, deve deixar a liderança que dividia com o Partido Popular. Na Alemanha e na Itália as legendas de direita filiadas ao PPE - a Democracia Cristã, de Angela Merkel, e a Forza Italia, de Silvio Berlusconi - devem seguir majoritárias. Na Grã-Bretanha, mesmo tendo abandonado o PPE, os conservadores devem obter a maioria.?EUROCÉTICOS?Além da direita, partidos de extrema direita e movimentos "eurocéticos" vivem expectativa de crescimento em quase uma dezena de países, em especial no Leste Europeu, onde a crise financeira é mais grave. Na República Checa, os militantes do Partido Operário realizam desfiles anticiganos durante a campanha. Na Bulgária, o Partido Ataka busca votos com a bandeira "Não à Turquia na Europa". Na Hungria, o partido ultranacionalista Jobbik atribui a crise à adesão do país à comunidade econômica.Os slogans de teor populista, antieuropeu e até neonazista também estão de volta. No Reino Unido, Nick Griffin, líder do Partido Nacional Britânico (BNP), defende o lema "Trabalho britânico a trabalhadores britânicos" e tem se aproveitado da crise política de seu país para denunciar a corrupção do establishment. A estratégia faz Griffin projetar a conquista de até sete cadeiras em Bruxelas e Estrasburgo.Na Holanda, Geert Wilders, expoente do Partido para a Liberdade (PVV) - o mesmo que prega a divisão da Bélgica - também usa do discurso contra as comunidades islâmicas, mesma estratégia usada no lema de campanha do Partido das Liberdades (FPÖ), da Áustria: "O Ocidente nas mãos dos cristãos." De acordo com cientistas políticos, estes partidos tiram proveito da visão negativa que a opinião pública de 12 países têm da União Europeia (leia abaixo)."A Europa leva a culpa por todos os males, enquanto todos os sucessos acabam capitalizados pelos políticos nacionais", disse ao Estado Nicole Gnesotto, especialista em União Europeia do Conservatório Nacional de Artes e Ofícios (Cnam), de Paris.Além do avanço da direita, as eleições devem ser marcadas pelas abstenções. Pesquisa realizada há duas semanas pelo instituto TNS-Sofres, em 24 dos 27 países-membros, indica que apenas 43% dos europeus aptos a votar vão fazê-lo "com certeza". Outros 6% afirmam que votarão "muito provavelmente"."O desemprego está em alta e a proteção social, em baixa. As eleições mobilizam poucos porque a Europa não traz proveito para as classes populares", disse o cientista político espanhol Vicent Navarro, reitor emérito da Universidade Progressista da Catalunha (Upec). Fabio Liberti, do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas (Iris), de Paris, mostra um paradoxo: no momento em que o Parlamento mais exerce seu papel - aprovando textos contra lobbies poderosos, como o pacote Energia-Clima, sobre mudanças climáticas, e a polêmica Diretriz Retorno, sobre imigração -, menos ele é prestigiado. "Há uma contradição: enquanto o poder do Parlamento é cada vez maior, os cidadãos europeus vão cada vez menos às urnas para escolher seus deputados."

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