Eloisa Lopez/REUTERS
Eloisa Lopez/REUTERS

Direita e esquerda devem prestar atenção ao Nobel: Jornalismo é garantia da democracia

É sob pressão que o direito à informação de qualidade é lembrado como um dos princípios da Declaração dos Direitos Humanos

Andreza Matais*, O Estado de S.Paulo

08 de outubro de 2021 | 17h20

A liberdade de opinião e expressão era um dos poucos direitos universais que não tinham sido lembrados para o Prêmio Nobel da Paz. A láurea deste ano à filipina Maria Ressa e ao russo Dmitri Muratov, jornalistas atacados em seus países por combater as fake news, tem o valor das concedidas nos últimos anos a ativistas dos setores da saúde, da alimentação, do trabalho e dos imigrantes e refugiados.

Trata-se de uma condição para a democracia e a paz duradoura, afirma o comitê norueguês. É sob pressão que o direito à informação de qualidade é lembrado como um dos princípios da Declaração dos Direitos Humanos aprovada pelas Nações Unidas no pós-guerra. O exercício profissional tornou-se, cada vez mais, um fator de risco mesmo em zonas sem conflito armado nos mais diversos cantos do mundo.

Muratov dedicou seu prêmio a jornalistas mortos no exercício da profissão. No Brasil, em especial, 15 repórteres de rádio e sites de notícias foram assassinados nos últimos cinco anos. Eranildo Ribeiro da Cruz, de Almeirim, no Pará, do jornal Tribuna Regional, morreu asfixiado no último dia 6 de setembro. O tráfico de drogas, o crime de mando político e o crime organizado tornaram um tormento a vida de repórteres brasileiros – as fake news se disseminaram nas redes e põem em risco a vida real de profissionais.

No plano nacional, a frente de ataques ao jornalismo parece unir setores que se dizem antagônicos. Discursos autoritários e que desqualificam o trabalho da imprensa vem do atual presidente da República e de seus prováveis adversários em 2022, da direita, do centro e da esquerda. É como se o ataque à imprensa profissional fosse um negócio rentável, lucrativo.

É bom perguntar: até quando o atual mandatário e os demais presidenciáveis vão recorrer à agressão ao jornalismo na política. Os ataques sistemáticos da máquina de fake news do bolsonarismo ou as velhas ameaças de regulação da mídia do PT, num modelo anacrônico anterior às transformações da plataforma da comunicação no mundo, não dão sinais de trégua. Agentes que se colocam como progressistas mantêm um discurso contra o jornalismo, tentando dissociar a liberdade de expressão dos direitos fundamentais.

O Nobel parece ter sido bem explícito ao afirmar que a liberdade de expressão vai muito além de um tema de uma classe ou mesmo do jogo político. O bombardeio generalizado das fake news tem por alvo os Estados democráticos e a vida de suas populações. As informações falsas sobre a pandemia mostram isso de maneira dura.

O fato de Maria Ressa ser reconhecida é outro motivo para a valorização do prêmio neste ano. A mulher no jornalismo aqui e lá fora virou protagonista na produção de conteúdo, mas sofre um ataque adicional devido à sua condição de mulher. A cada reportagem em que desnudam grandes esquemas, elas costumam receber o dobro de agressões em suas contas nas redes. Jornalistas brasileiras de maior prestígio, Miriam Leitão e Eliane Cantanhêde trabalham todos os dias sob ataques misóginos. Há uma tentativa de militâncias de abafar o que elas escrevem com agressivas investidas de gênero. Nunca abriram mão do esforço de reportagem para ajudar um país a entender a sua história.

Vale lembrar ainda que o Brasil é signatário da Declaração de Chapultepec, de 1994, que definiu que a liberdade de imprensa é fundamental para uma sociedade livre. A escolha do Nobel em 2021 é a maior resposta para quem acha que pode desacreditar o jornalismo e ocupar o espaço da reportagem com distorções, mentiras e violência.

*Jornalista e editora executiva do Estadão em Brasília

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