Direita francesa quer cooptar a "intelligentsia"

A direita francesa está disposta a deflagrar a "batalha das idéias", aproveitando que os partidos de esquerda estão ainda desestabilizados pelos recentes resultados eleitorais (derrotados nas eleições presidenciais e legislativas) e, alguns deles, divididos por fortes disputas internas. Diante disso, os dirigentes dos partidos de centro-direita e os liberais que controlam quase todos os poderes no país - a Presidência da República, a chefia do governo e a maioria absoluta no Senado e Assembléia Nacional - acreditam que chegou a hora de procurar uma densidade ideológica que possa lhes garantir uma longa permanência no poder.O novo e grande partido de Jacques Chirac, a União da Maioria Presidencial, já imagina criar uma fundação, a partir de janeiro, para desenvolver esse debate de idéias, na expectativa de que diversos grupos de reflexão possam instalar-se no interior da maioria, com o objetivo de atrair intelectuais, pesquisadores, universitários - a chamada "intelligentsia" francesa, normalmente classificada à esquerda.Esse movimento busca encontrar um novo caminho entre a geração de Maio de 1968, que prevaleceu até agora, mas que já começa a perder fôlego, e uma sociedade muito hierarquizada e centralizada, sem grandes aberturas.A nova direita francesa hesita ainda em definir-se como tal, mas está à procura de uma doutrina que leve mais em consideração sua cultura ideológica e suas novas aspirações, aproveitando a grande frustração da esquerda francesa, os comunistas, verdes e socialistas, que não conseguem definir novos rumos. Mesmo a extrema esquerda, de origem trotskista, cujo discurso pouco ou nada evoluiu durante todo esse tempo, tem encontrado dificuldades e não tira proveito da situação.O objetivo de reunir intelectuais franceses nesse "clube de idéias" é o grande sonho da direita, cuja tentativa anterior acabou fracassando. Durante a campanha presidencial de Chirac, em 1995, o escritor Denis Tilinac, próximo do atual presidente, procurou aproximar intelectuais franceses do então candidato, época em que ele denunciava a existência no país de uma "fratura social".Alguns nomes da esquerda chegaram a participar de encontros - entre eles, Regis Debray, fundador do clube Phares et Balises, e o demógrafo Emmanuel Todd, um ex-mitterrandista, disposto a romper com o chefe, doente e pagando o preço dos erros cometidos no poder.Tão logo eleito, Chirac abandonou o tema da "fratura social" e os desiludidos intelectuais aproximaram-se do "Pólo Republicano" de Jean Pierre Chevènement, após sua ruptura com os socialistas de Lionel Jospin.Um dos partidários dessa evolução junto aos gaullistas e liberais reunidos no UMP é o atual ministro da Agricultura, Hervé Gaymard, que reconhece ser de direita , mas só quando precisa definir-se em relação à esquerda francesa. A seu ver, o governo de Vichy, durante a ocupação, fez com que direita se tornasse um termo satanizado. Hoje, ele está convencido que está na hora de dar substrato ideológico à direita.Até agora, o talento e a energia de Chirac contribuíram para maquiar essa ausência de ideologia e de pensamento entre os gaullistas modernos, pós-De Gaulle, mas esse é o momento de reconciliar o pensamento liberal ao pensamento republicano não-marxista, de Tocqueville e Benjamin Constant, diz o ministro Hervê Gaymard, o homem que foi um dos redatores do programa de governo de Chirac.

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