Direita tem vitória apertada em Buenos Aires

Capital argentina escolheu Horacio Larreta como sucessor do prefeito Mauricio Macri, principal nome opositor contra kirchnerismo em outubro, que esperava uma vitória avassaladora

Rodrigo Cavalheiro, O Estado de S. Paulo

19 de julho de 2015 | 20h16

BUENOS AIRES - O principal candidato opositor à presidência da Argentina, Mauricio Macri, fez neste domingo, 19, seu sucessor na prefeitura de Buenos Aires com mais dificuldade do que esperava. A vitória do engenheiro Horacio Larreta, de 49 anos, era dada como certa, em razão da popularidade de seu padrinho político, que deixará o governo da capital com aprovação superior a 60%. Havia expectativa sobre a vantagem que teria sobre o rival, o economista e deputado Martín Lousteau, cujo partido faz parte da coalizão de Macri na eleição presidencial, que ocorrerá em 25 de outubro. 

A diferença entre os dois, com 96% das urnas apuradas, era de 51,6% ante 48,3%. As últimas pesquisas colocavam o candidato de Macri 10 pontos porcentuais à frente. No primeiro turno, há duas semanas, o resultado foi de 45,5% a 25,5% a favor de Larreta, o que tornou a vitória apertada algo surpreendente para os analistas e frustrou parte dos militantes de Macri, que esperava fazer um relançamento de campanha nacional.

"Não bastava que Larreta vencesse, era fundamental que a diferença fosse ampla para Macri fortalecer seu projeto nacional. O tamanho da vantagem daria um clima favorável. A capital historicamente é opositora ao peronismo, onde Cristina tem a mais baixa popularidade, assim como nas províncias de Córdoba e Santa Fé. Ainda assim, não dá para dizer que os votos na disputa nacional sigam exatamente a mesma tendência das províncias", disse Mariel Fornoni, diretora da consultoria Management & Fit. 

A disputa entre dois candidatos que estão em sua coalizão nacional poderia sugerir que Macri ganharia com qualquer resultado, mas o ex-presidente do Boca Juniors demonstrou preocupação na última semana e deixou em segundo plano a campanha presidencial. Ele abandonou as viagens pela região metropolitana para emprestar popularidade a seu afilhado. Uma vitória apertada de Larreta contra Lousteau, do recém fundado Energia Cidadã Organizada (ECO), poderia sugerir fragilidade na tentativa de Macri chegar à Casa Rosada. Ao canal TN, o analista político Rosendo Fraga avaliou que, apesar da vitória, o resultado apertado foi "claramente desfavorável a Macri". O domínio da capital argentina é o principal trunfo da oposição à presidente Cristina Kirchner. Após o primeiro turno, Lousteau denunciou ter sido pressionado a abandonar a disputa, para não prejudicar o projeto nacional opositor.

Buenos Aires tem 2,5 milhões de eleitores e representa 8% dos votos do país. Em uma eleição marcada por um pacto de não agressão entre os rivais, não havia clima tradicional de campanha. Os eleitores não levavam bandeiras, pins ou adesivos dos candidatos. Na Faculdade de Direito da Universidade de Buenos Aires, um dos maiores centros eleitorais da cidade, Susana Prats, de 55 anos, esperava que a urna fosse levada até sua mãe, Susana Vallejo, de 90 anos, que chegou à entrada do local de votação caminhando com dificuldade, apoiada em uma bengala. "Queremos um governo com justiça para todos, não só para alguns", disse a eleitora de Larreta. "Estou feliz em vir, mesmo sem obrigação", completou Vallejo. Foi a primeira votação eletrônica na cidade. Na eleição nacional, as cédulas de papel voltarão a ser utilizadas.

Em um dia típico de primavera, em que temperatura chegou a 18ºC, os moradores lotaram os parques da cidade. Boa parte deixou para votar no fim da tarde, de bicicleta ou com animais de estimação. A participação de 70% foi menor do que a do primeiro turno, de 73%, abstenção atribuída às férias de inverno. Os eleitores kirchneristas, que não conseguiram levar seu candidato, Mariano Recalde, ao segundo turno, transferiram seus votos em sua maioria a Lousteau, que chegou a ser ministro da Economia kirchnerista e rompeu com o governo. Foi a primeira vez que o kirchnerismo figurou como terceira força na cidade. "Minha máquina fez um barulho diferente. Não gostei. Só vim porque sou obrigada, não votei em nenhum desses dois", disse uma eleitora kirchnerista, irritada, ao sair do edifício.

Em seu último voto como prefeito, Macri disse esperar que este seja o começo de um caminho que se reproduza em todo o país. "Uma vitória seria um impulso para a campanha nacional", afirmou. Ele ironizou os questionamentos sobre uma possível confusão com a introdução do voto eletrônico na cidade. "Há duas fotos. Uma de um candidato careca e outro cheio de cachos." Magro, alto e de cabelo rebelde, Losteau, de 44 anos, incentivou durante a campanha o apelido de Guga Kuerten. Macri apareceu para votar com duas dúzias de croissants, que distribuiu entre jornalistas e autoridades. No primeiro turno, há duas semanas, ele levou apenas uma dúzia. "Então me acusaram de pão-duro, por isso trouxe duas dúzias desta vez."

Representantes das campanhas de Daniel Scioli e Sergio Massa, os outros presidenciáveis, ouvidos pelo canal TN, avaliaram o desempenho do PRO como abaixo do esperado e "celebraram" a frustração de uma vitória avassaladora da direita na capital. Segundo o último levantamento da consultoria M&F, do início de julho, Scioli tinha 36,9% das intenções de voto, Macri aparecia com 31,6% e Massa obtinha 12,1%.

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