Direita vence primária em Buenos Aires e fortalece Macri na disputa pela presidência

Principal nome opositor à presidência vence divisão interna e impõe seu preferido para substituí-lo no comando da capital, dominada pela direita

Rodrigo Cavalheiro, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES

26 de abril de 2015 | 21h46

O candidato indicado pelo prefeito de Buenos Aires, Mauricio Macri, para substituí-lo venceu neste domingo, 26, a primária da capital argentina em uma disputa interna acirrada. O triunfo ganhou inesperada importância para sua ambição de levar a direita à Casa Rosada em outubro, porque o livrou de uma contestação a sua liderança caso fosse derrotado dentro do partido que criou, o Proposta Republicana (PRO). 


Analistas e rivais concordam que a vitória do economista Horacio Larreta sobre a senadora Gabriela Michetti, ambos do PRO, salvou Macri de um constrangimento, depois de ele decidir apoiar abertamente seu chefe de gabinete. Michetti dividiu o partido ao rejeitar ser candidata a vice na chapa presidencial de Macri para insistir na disputa pela prefeitura. Ela admitiu a derrota às 21h30, "felicitando de coração" seu opositor. "Poderia ter escolhido o caminho mais fácil, mas fui atrás de uma convicção", disse.


Especialistas sustentam que essa foi a votação mais difícil para Larreta. O PRO seguirá governando a cidade segundo todas as pesquisas, por larga margem. Unidos, Larreta e Michetti tiveram cerca de 50% dos votos, o que poderia dar a vitória à direita no primeiro turno em 5 de julho. Um segundo turno ocorreria em 19 de julho - que poderia ocorrer com o kirchnerista Mariano Recaldo, presidente da Aerolineas Argentinas, ou com o economista Martín Lousteau, da Frente Unen. 


As primárias argentinas envolvem todos os partidos e dão uma parâmetro para a eleição definitiva, considerando-se que os eleitores repitam seu voto no mesmo grupo político. Macri conquistou uma aprovação superior a 60% investindo sobretudo em transporte público: 140 quilômetros de ciclovias e um sistema de ônibus que agora até a esquerda aprova. Com o triunfo de Larreta entre os 2,5 milhões de eleitores da capital, a tendência é de que os acertos locais passem a ser divulgados no país e Macri passem a existir fora da capital.

 

Entre os exemplos da "eficiência" que a propaganda de Macri martela, as ciclovias são a mais incontestável. "Acho o governo de Macri péssimo. Acabou com os hospitais, com as escolas e triplicou a dívida gastando em propaganda. Mas a César o que é de César. Pedalo 20 km para trabalhar e em 70% do caminho há ciclovia. Todos meus funcionários têm bicicleta", diz Héctor Montes de Oca, sócio de uma loja de insumos para cultivo de ervas variadas no bairro de Palermo e "kirchnerista fanático".  


O secretário de Transportes de Buenos Aires, Guillermo Dietrich, tem más lembranças de 2009, quando foram instalados os primeiros 39 quilômetros de balizas e protetores amarelos. "A oposição e a imprensa nos trucidaram. Os motoristas estavam no engarrafamento, viam aquele espaço ao lado vazio e ficavam loucos. Não entendiam é que o engarrafamento estava ali antes", afirma. 


Segundo Dietrich, a aceitação veio sem concessões, mas faltam ajustes. Há desníveis nas vias e desrespeito às normas por pedestres, motoristas e ciclistas - 80% não usam capacete, 65% não respeitam a prioridade dos pedestres e 45% não obedecem ao semáforo, segundo o Centro de Experimentação e Seguridade Viária. 


Ele sustenta que as ciclovias e o metrobus - três corredores de ônibus expressos, um deles na principal avenida, a 9 de julho - não são obras de infraestrutura, mas de mudança cultural. Há 300 empresas hoje que oferecem estacionamento para bicicleta aos funcionários e algumas dão bônus a quem as usa.


Para o analista político Fabián Perechodnik, diretor da consultoria Poliarquía, Macri tende a usar esse trunfo em transporte público de maneira indireta. "Ele não vai espalhar ciclovia e corredores por todo o país. Mas pode passar a imagem de um gestor eficaz, preocupado com o meio ambiente e as coisas que realmente mudam a vida da população."

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