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Direito ao sexo pleno

Debate sobre o acompanhamento sexual das pessoas com deficiência está reaberto na França

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

18 de fevereiro de 2020 | 04h01

Vem aí um novo problema, surgindo dentre os males da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), a eterna questão da radicalização do Islã e a ópera-bufa que se tornou a eleição do futuro prefeito de Paris. Este novo tópico de debate é mais modesto na aparência, mas crucial para uma parte da população: o acompanhamento sexual às pessoas com deficiência.

Como sempre, a França está atrás de muitos de seus vizinhos. Dinamarca, Holanda, Suíça, Bélgica e Alemanha asseguram existência legal a “acompanhantes sexuais”. Na França, como em muitos outros países retrógrados, isto não existe. É a hipocrisia que reina. Em outras palavras, a enganação, covardia, a vergonha, a negação, a alusão furtiva e obscena, para não dizer agravante e mentirosa. Esse acompanhamento sexual é praticado na França, mas fique quieto! Não se pode sair falando por aí. É praticado com discrição, silêncio e clandestinidade.

Nessa arte da duplicidade, nessa sacralização da mentira, a França sempre esteve entre os países mais obtusos. Mas hoje, finalmente, o debate sobre o acompanhamento sexual das pessoas com deficiência está reaberto. 

O véu se desvela lentamente. Na década de 1970, um jovem com atrofia muscular passou cinco anos no hospital, entre os 19 e os 26, tão afetado que permaneceu todo o tempo na UTI. Era tratado por enfermeiras ou auxiliares de enfermagem que lhe contavam sobre seus encontros românticos.

“Queria dizer o que estava sentindo”, ele explica, “mas, assim que fazia alusões, elas diziam que tinham um compromisso urgente e saiam correndo”. Certo dia, o jovem Marcel pediu para a enfermeira levantar o lençol para lhe mostrar sua condição. “A jovem enfermeira sorriu e foi embora. Fiquei completamente envergonhado naquele dia”.

Hoje, esse pioneiro tem 70 anos, está casado, tem dois filhos e se sente realizado. Ele fundou uma associação, a Apas, que traz pessoas privadas de todo contato físico para a presença de guias profissionais que passaram por um treinamento prévio.

Algum progresso, portanto, mas não para todos. A lei não avançou nem um pouco. Teimosa feito um burro, não progrediu. Ainda considera que essa atividade merece a infame nomenclatura de “proxenetismo” e que os acompanhantes praticam a “prostituição, cujo exercício é proibido” na França. E aqui está o mais perverso: a pessoa com deficiência que confia em um acompanhante é multada em 1,5 mil euros.

Uma dessas acompanhantes relata: estava passeando com um jovem enfermo. Em certo momento, ela o ajuda, pegando-o por debaixo do braço. O jovem diz: “Você tem um toque sensual”. Na época, disse a jovem, “entendi que ninguém nunca o havia tocado, exceto nos exames médicos”. E também para o jovem essa descoberta da pele foi um gatilho. Ele começou a fazer pedidos cada vez mais precisos. A jovem se tornou acompanhante.

Em geral, acredita-se que a demanda dos deficientes é puramente sexual. Uma pulsão animal. Às vezes é isso mesmo – e por que não seria? Mas os acompanhantes também encontram uma outra coisa: a necessidade de estar em sociedade. Em muitos casos, os dois pedidos se entrelaçam. 

Como na psicanálise, a questão do pagamento é complexa. A associação Apas cobra 150 euros por uma hora e meia. Isto é essencial, dizem os profissionais. “O pagamento ajuda a evitar, ou pelo menos limitar, o risco de apego sentimental”.

O trabalho requer sutileza, pois cada gesto pode causar danos terríveis. Hoje se coloca a questão de reabrir o debate sobre esse doloroso problema. Para esse tipo de assunto, a que chamamos de “pautas sociais”, Macron é bastante aberto, tolerante, sensível e ansioso (mas também prudente) para se afastar dessa Idade Média intelectual à qual as elites francesas tanto se apegam. 

Uma das mulheres que hoje luta pela legalização, para acabar com o tipo de “criminalização” enfrentada por esses serviços, escreve: “Trata-se de facilitar a inclusão das pessoas com deficiência na sociedade. Dessa forma, elas encontrarão outras pessoas com deficiência. E assim se tornarão capazes de conhecer outras pessoas e de se estabilizarem, para então formarem relacionamentos naturalmente”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU 

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