Direto do Cairo: Brasileira lamenta 'perda da inocência' no Egito

País ficou bem mais violento, diz residente há décadas no país em depoimento à BBC Brasil.

Rodrigo Durão Coelho, BBC

23 Maio 2012 | 14h54

"Desde o início da revolução, a segurança piorou demais. Em mais de 30 anos vivendo no Egito, nunca havia visto a situação tão ruim", diz a brasileira Sandra Felicia Fritz Fadel, moradora no Cairo e residente no país há 32 anos.

A revolução a que se refere foi a que derrubou o presidente Hosni Mubarak no começo do ano passado. "Antes, o Egito era caótico, barulhento e sujo, mas era seguro, quase inocente para quem vem de uma realidade como a de São Paulo."

"Os prédios não deixavam nem as portas fechadas, não havia roubo, praticamente."

"Mas agora todos os lugares têm grades. Não li estatísticas em lugar nenhum e falo por experiência própria: vários amigos foram assaltados, tiveram os carros roubados."

"Um conhecido meu foi sequestrado por dois meses", diz.

"Costumava organizar encontros mensais de brasileiros, mas há uns meses isso não acontece. As pessoas têm medo de sair às ruas", afirma.

"A embaixada brasileira mesmo recomenda que a gente não use as estradas e qualquer viagem interna seja feita de avião."

Conservadorismo

Além do aumento da sensação de insegurança, Sandra diz também se incomodar com o que sente ser um crescente conservadorismo na sociedade egípcia.

Ela mora no bairro de Zamalec, tradicionalmente um dos mais ocidentalizados e liberais. "Mas até aqui as coisas estão bem diferentes. Não se pode mais andar de bermuda. Carrego sempre um véu comigo para cobrir partes do meu corpo que antes não precisava, como os ombros."

A brasileira diz sentir, pela primeira vez desde que mudou para o país, hostilidade pelo fato de ser estrangeira.

"Já escutei algumas vezes coisas como 'é hora de tirar esse povo daqui', se referindo a mim, nas ruas", afirma.

Deste pleito, ela espera que surja um governo que mantenha a segurança. E impeça o que percebe ser a queda livre da economia.

"A percepção é que metade das lojas do centro da cidade fechou, na época dos confrontos na praça Tahrir, e não reabriram. Por lá andam multidões de desempregados."

"Há muito medo de que o turismo seja ainda mais afetado, ou por outro lado, que os militares não deixem o poder em julho como está previsto." BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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