AP Photo/Carolyn Kaster
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Diretor do FBI diz sentir 'náuseas' em pensar que influenciou eleições nos EUA

Hillary Clinton afirmou na terça-feira que teria sido eleita presidente se não fosse pela intervenção do WikiLeaks e da Rússia e pelo diretor do FBI nas últimas semanas da campanha

O Estado de S. Paulo

03 Maio 2017 | 15h45

WASHINGTON - O diretor do FBI, James Comey, afirmou nesta quarta-feira, 3, sentir "náuseas" ao pensar que possa ter influenciado as eleições do ano passado ao anunciar dias antes da votação que reabrira a investigação sobre o caso dos e-mails de Hillary Clinton.

Por outro lado, o chefe do FBI declarou ante uma audiência da Comissão de Justiça do Senado dos Estados Unidos que ocultar sua decisão poderia ter sido muito pior.

"Sinto náuseas em pensar que pudemos ter tido um impacto na eleição, mas, honestamente, isso não muda minha decisão", enfatizou.

Hillary Clinton afirmou nesta terça-feira que teria sido eleita presidente dos Estados Unidos se não fosse pela intervenção do WikiLeaks e da Rússia e pelo diretor do FBI nas últimas semanas da campanha.

"Estava no caminho para a vitória até que a carta de Jim Comey de 28 de outubro e o WikiLeaks russo geraram dúvidas na cabeça das pessoas que se inclinavam a meu favor e acabaram ficando com medo", declarou a ex-candidata democrata à Casa Branca em Nova York, ao ser entrevistada por um jornalista durante uma atividade da ONG Women for Women International.

"Se a eleição tivesse acontecido no dia 27 de outubro, eu teria sido presidente", disse.

Em 7 de outubro, um mês antes das eleições, o site WikiLeaks vazou mensagens do presidente da equipe de campanha de Hillary, John Podesta, menos de uma hora depois de a imprensa divulgar um vídeo de 2005, no qual Donald Trump falava de mulheres em um tom grosseiro.

"Que coincidência", ironizou Hillary Clinton, sugerindo que Wikileaks e Rusia agiram para atenuar o impacto do vídeo de Trump.

Semanas depois, em 27 de outubro, Comey anunciou ao Congresso que agentes do FBI (a Polícia Federal americana) haviam encontrado novas mensagens que justificavam reabrir as investigações sobre os e-mails apagados pela democrata na época em que utilizava um servidor privado quando era secretária de Estado.

O FBI não encontrou, porém, qualquer dado incriminatório nos e-mails de Hillary Clinton e arquivou as investigações dois dias antes das eleições de 8 de novembro.

"Cometi erros? Por Deus, sim", acrescentou Hillary. "Mas a razão pela qual perdemos está nos acontecimentos dos dez últimos dias" da campanha, disse a ex-candidata, insistindo em que os votos antecipados e as pesquisas lhe davam a vitória.

Seguindo as conclusões do governo de Barack Obama, ela acusou o presidente russo, Vladimir Putin, de ter operado contra ela pelo ódio que sentia desde 2011. Na época, a então chefe da diplomacia americana criticou as eleições na Rússia.

"Quando se observa meu adversário e as declarações de sua equipe de campanha, vê-se que estavam bastante coordenados com os objetivos do líder, cujo nome não direi", afirmou, referindo-se a Putin. "Tive 3 milhões de votos a mais do que meu adversário", lembrou a democrata. Trump perdeu pelo voto popular, mas ganhou pelo voto indireto.

Na audiência na Comissão de Justiça do Senado, o senador republicano Chuck Grassley perguntou a Comey se o Kremlin continua envolvido em ações que afetam a política dos EUA, a quem ele respondeu de maneira afirmativa.

Em seguida, Comey descreveu a Rússia como "a maior ameaça" para a segurança dos Estados Unidos, dada sua "intenção e sua capacidade".

Comey considerou que a Rússia ainda trata de causar impacto na política dos EUA pelos bons resultados que obteve no ano passado. "Acredito que uma das lições que os russos podem ter aprendido com isto é que funciona", disse Comey.

O diretor do FBI enfrenta hoje em uma audiência do Senado numerosas perguntas sobre a ingerência russa nas eleições, bem como sobre a investigação aberta a Hillary.

Dossiê. Durante a audiência, o senador Grassley, presidente da Comissão de Justiça do Senado, pediu a Comey explicações sobre diferentes pontos da investigação russa, como um suposto dossiê que o Kremlin tem com informação comprometedora sobre a vida de Trump e com o qual presumivelmente tratou de chantagear o magnata.

O relatório foi elaborado pelo ex-espião britânico Christopher Steele e, desde que foi vazado em janeiro pelo site Buzzfeed, a autenticidade de seu conteúdo não pôde ser verificada.

O relatório fala de um sórdido encontro de Trump com prostitutas no quarto de um hotel de Moscou filmado com câmeras e microfones dos serviços de inteligência russo e também recolhe grandes ofertas de negócios em Moscou ou São Petersburgo para influenciar Trump.

Frente a estas perguntas, Comey rejeitou fazer comentários e disse que não podia confirmar em público informações que poderiam fazer parte da investigação russa. / AFP e EFE  

 

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