REUTERS/Carlos Garcia Rawlins
REUTERS/Carlos Garcia Rawlins

Diretores de jornais da Venezuela voltarão ao país para enfrentar acusação de chavista

Alberto Federico Ravell, do site 'La Patilla', e Miguel Henrique Otero, do jornal 'El Nacional', prometeram voltar à Caracas para julgamento de ação movida pelo presidente da Assembleia, Diosdado Cabello

O Estado de S. Paulo

14 de maio de 2015 | 12h57

CARACAS - Os diretores de um jornal e de um portal de notícias da Venezuela que foram proibidos por uma juíza na terça-feira de deixarem o país enquanto corre um processo contra eles movido pelo presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello, anunciaram nesta quinta-feira, 14, que retornarão ao país para enfrentar o julgamento. Na noite de terça-feira, a juíza venezuelana María Eugenia Núñez proibiu a saída do país de 22 diretores dos jornais El Nacional, Tal Cual e do site La Patilla, todos críticos ao chavismo. 

O presidente do jornal El Nacional - um dos principais veículos impressos do país - , Miguel Henrique Otero, afirmou nesta quinta-feira, 14, ao canal colombiano NTN 24 que voltará para a Venezuela mesmo sabendo "que não poderá sair novamente". "Assumo minha responsabilidade. Não vou deixar de dirigir o jornal", disse Otero, que está nos Estados Unidos. O diretor do Nacional disse que se apresentará aos tribunais do país para denunciar como o governo promove julgamento contra seus opositores e afirmou "não acreditar no sistema judiciário" venezuelano.


Da Colômbia, o editor do site La Patilla, Alberto Federico Ravell, disse que está disposto a "voltar imediatamente" para a Venezuela. "Estarei nos próximos dias onde eu acho que será mais útil para explicar aos venezuelanos o que está acontecendo no caso da imprensa", disse Ravell em entrevista à Associated Press. Ele não confirmou, porém, o dia em que voltará ao país.


Na opinião do jornalista, a ação comandada por Cabello contra diretores e acionistas dos veículos de imprensa terá um "altíssimo custo político" para o governo do presidente Nicolás Maduro. "O que está em jogo aqui é a liberdade de expressão, a democracia e o processo eleitoral que se aproxima", disse Ravell, que descartou qualquer mudança na linha editorial do popular portal de notícias que dirige em razão do processo movido pelo deputado chavista.

Na quarta-feira, o Sindicato Nacional dos Trabalhadores em Jornalismo (SNTP, na sigla em espanhol) criticou a decisão da juíza venezuela por meio de um comunicado publicado em seu site. “Diante desse novo golpe que debilita ainda mais o exercício da liberdade de expressão e tenta impor um regime de censura e autocensura, o SNTP reitera a necessidade de anular as leis que penalizam a opinião e substituem os mecanismos de retificação por penas como essa”, diz o texto. 

A Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) também condenou a decisão. “A medida mostra mais uma vez como a Justiça venezuelana é usada como instrumento do poder político”, disse o presidente da entidade, Gustavo Mohme. “Esse procedimento judicial rompe com os princípios estabelecidos pela Corte Interamericana de Direitos Humanos, que estabelece que veículos não podem ser responsabilizados por informações de outros meios de comunicação.”

Pressão. O presidente da Assembleia abriu o processo contra os três veículos em abril em razão da republicação de uma reportagem do diário espanhol ABC que o acusava de envolvimento com o tráfico de drogas. Segundo o jornal madrilenho, a Justiça Federal em Nova York investiga o número 2 do chavismo com base em informações dadas por Leamsy Salazar, um ex-guarda-costas dele e do ex-presidente Hugo Chávez, morto em 2013. Cabello decidiu processar os três veículos venezuelanos que divulgaram a informação.

“Desde o dia 27 de janeiro esses veículos têm publicado essas informações, no que consideramos um grave dano à reputação e à honra do querelante”, dizem os advogados de Cabello no processo. 

Além pedir que os diretores e acionistas de jornais e portais possam deixar o país, medida que foi acatada pela Justiça, o chavista Cabello afirmou que solicitou ao tribunal que cuida do caso que os réus na ação não possam doar ou vender bens pessoais - medida tomada garantir que todos tenham como pagar uma possível indenização em caso de condenação. / AP e EFE

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.