Dirigente chinês minimiza valor da democracia

Para membro do Ministério das Relações Exteriores, progresso da China deveria ter mais espaço no noticiário que repressão a dissidentes e censura

CLÁUDIA TREVISAN, CORRESPONDENTE / PEQUIM, O Estado de S.Paulo

12 de junho de 2012 | 03h06

O desenvolvimento da China mostrou que é falsa a premissa ocidental de que "só a democracia pode levar à prosperidade", afirmou ontem o vice-diretor do Departamento de Informação do Ministério das Relações Exteriores da China, Ma Jisheng. Ele também disse que é mais importante os meios de comunicação estrangeiros noticiarem esse fato do que o aniversário do massacre da Praça da Paz Celestial ou a situação do ativista cego Chen Guangcheng, que são "desconhecidos da maioria dos chineses".

Em entrevista para oito jornalistas latino-americanos, Ma disse que a ignorância da população em relação a esses episódios não se deve à censura. "A população não tem interesse nesses assuntos e os meios de comunicação têm espaço e recursos limitados. Portanto, não há motivação para dar notícias sobre esses temas", observou.

Ma disse que ele próprio não poderia falar mais do que um minuto sobre Chen Guangcheng, o ativista que provocou uma crise diplomática entre EUA e China ao se refugiar na embaixada americana no fim de abril. "Não o conheço e tampouco me interessa."

O vice-diretor também criticou a suposta obsessão da mídia ocidental em relação ao massacre de estudantes na Praça da Paz Celestial em 1989, no qual centenas ou mais de mil pessoas morreram. "Esse caso ocorreu há mais de 20 anos e algumas pessoas continuam atentas a ele, mas a maioria da população não tem esse tipo de recordação, pois ela não tem relação com sua vida cotidiana", declarou Ma.

A repressão aos protestos completou 23 anos no dia 4. No último aniversário, o governo de Pequim intensificou a censura na internet e bloqueou o uso de quaisquer palavras ou números que fizessem referência ao episódio. Até o termo "Bolsa de Xangai" foi bloqueado, depois que o índice de ações fechou em queda de 64,89 pontos, cifra que podia ser lida como uma menção ao 4 de junho de 1989, data do massacre.

"Se um soldado americano faz um bombardeio e mata mais de cem civis afegãos, essa notícia não aparece. E nenhum meio de comunicação vai seguir o processo para pedir a responsabilização correspondente", observou Ma, no que considera como o uso de dois pesos e duas medidas no tratamento da China e dos EUA.

Para ele, a imprensa dos países em desenvolvimento deveria dar destaque ao fato de que a China está traçando um caminho "peculiar de desenvolvimento", que a levou em pouco tempo à posição de segunda maior economia do mundo. "Essa é uma notícia mais importante que o caso de Chen Guangcheng", afirmou.

"Antes existia no mundo ocidental a ideia de que só a democracia poderia levar à prosperidade. O êxito da China mostrou que existem outras alternativas e a China tampouco pode ser igualada a um regime autoritário", disse.

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