Dirigente chinês pega prisão perpétua

Justiça condena Bo Xilai, que era estrela em ascensão do Partido Comunista, por corrupção, desvio de recursos e abuso de poder

DIOGO FERREIRA GOMES, ESPECIAL PARA O ESTADO / PEQUIM , O Estado de S.Paulo

22 Setembro 2013 | 02h02

Seis meses depois de Xi Jinping assumir a presidência da China e prometer um "combate inabalável à corrupção", o ex-dirigente Bo Xilai foi condenado a prisão perpétua por esse e mais dois crimes: desvio de recursos e abuso de poder. A sentença, lida no fim da noite de ontem (manhã na China) representa o fim de um caso sem precedentes na história do país.

Bo era uma estrela em ascensão dentro do Partido Comunista e governava a metrópole de Chongqing quando foi envolvido no assassinato do empresário britânico Neil Heywood, em 2011. Wang Lijun, chefe da polícia local, pediu asilo ao Consulado dos EUA em Chengdu, porque tinha provas de que a mulher de Bo, Gu Kailai, havia mandado matar o britânico. Ela foi condenada à morte com surcis, o que, na prática, significa prisão perpétua. Wang pegou 15 anos de cadeia por corrupção, deserção, manipulação da lei e abuso de poder.

No fim de 2012, ao virar secretário-geral do Partido Comunista, Xi Jinping avisou que faria um combate incansável contra a corrupção e nunca escondeu que a cruzada era para evitar qualquer risco à manutenção do PC no poder diante do descontentamento popular.

Dali Yang, professor de ciências políticas da Universidade de Chicago, diz que Xi tem razão em temer que a corrupção alimente um levante contra o governo. "Para muitos chineses, a frustração vem crescendo não só em razão da corrupção, mas porque a população vê que a desigualdade, em parte, é resultado da corrupção, principalmente daqueles com acesso ao poder", explicou.

Campanha. Ao assumir o partido, Xi fomentou a campanha anticorrupção. Desde então, muitos funcionários públicos de pequeno escalão têm sido denunciados por internautas, que alardeiam o alto padrão de vida dos corruptos. Recentemente, houve dois casos de grande repercussão denunciados por cidadãos comuns beneficiados pela privacidade da web.

Foi assim que um policial que tinha 22 casas pegou 11 anos e meio de prisão e um fiscal do trabalho com uma extensa coleção de relógios de luxo foi condenado a 15 anos na cadeia.

Algumas medidas anticorrupção, no entanto, são exageradas. Sites ligados ao governo, como o Diário do Povo, jornal oficial, passaram a ter seções para denúncias.

Para evitar desvios de verbas e propinas em licitações, Pequim cortou uma série de gastos, como bailes de gala e concessão de honrarias em casos sem extrema importância. Proibiu o gasto de dinheiro público para a compra de tortas da lua, que é tradição dar como presente em um festival no mês de outubro.

A cientista política Melanie Manion, no entanto, está pessimista quanto aos resultados. "As medidas de Xi são frustrantes. Antes de mais nada, baseiam-se em muitas proibições e poucos incentivos. Elas não se atentam aos incentivos institucionais fundamentais que fomentam a corrupção nem consideram o quão fácil cada uma dessas regras pode ser desrespeitada", disse Manion, professora da Universidade de Wisconsin-Madison.

O anúncio da sentença de Bo Xilai ocorre após três dias seguidos de feriado em razão do Festival da Lua e quase um mês depois do histórico julgamento, que durou cinco dias e virou um grande espetáculo midiático.

Bo Xilai já esperava uma pena longa, segundo carta escrita a familiares há poucos dias. Pesa contra ele o fato de ter irritado a Promotoria ao negar admitir os crimes durante o julgamento.

"(O julgamento) é um recado do governo chinês de que todos devem obedecer à lei, independentemente do cargo ou posição. Vai beneficiar a imagem não só do governo, como do próprio Xi", disse o professor Ren Xiao, especialista em relações internacionais da Universidade Fudan, em Xangai.

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