AP Photo/Fernando Vergara
AP Photo/Fernando Vergara

Discípulo de Uribe é favorito na Colômbia

Promessa de rever negociação com grupos armados dá vantagem a Iván Duque 

Rodrigo Cavalheiro, Enviado Especial à Venezuela e à Colômbia , O Estado de S.Paulo

26 Maio 2018 | 05h00

O filho da vendedora ambulante colombiana Luz Elena García foi executado em 2002, aos 19 anos, a mando de Jorge Iván Laverde, “El Iguano”. Paramilitar que atuou na fronteira com a Venezuela, ele ordenou mais de 4 mil assassinatos e     já está livre. A promessa de menos diálogo com os envolvidos no conflito armado levará não só Luz, mas provavelmente o maior grupo de eleitores colombianos a votar amanhã no conservador Iván Duque, pupilo do ex-presidente Álvaro Uribe.

 “Um presidente correto não pode se reconciliar com assassinos. Se um lado está certo e outro está errado, o que vamos negociar?”, questiona Luz. Ao usar pulseira e boné com as fotos de Duque e colar em seu carrinho um adesivo com a imagem do candidato, sem saber ela faz campanha para o homem que permitiu ao assassino de seu filho estar livre. 

Foi Uribe, padrinho eleitoral de Duque, quem negociou com os paramilitares um acordo que os condenou a penas máximas de 8 anos. Luz, mãe de uma vítima, como boa parte da população, põe no mesmo balaio todos os grupos que transformaram a Colômbia em um dos países mais violentos do mundo entre os anos 80 e 0 início dos 2000. 

A ponta mais visível desta insatisfação com o tratamento aos criminosos é o acordo com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), reprovado em referendo e logo absorvido pela Constituição com adaptações. Mas isso não quer dizer que Duque possa desmontar o pacto.

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“É pouco provável que Duque acabe com o acordo com as Farc, até porque boa parte do pacto está blindado com a inclusão na Constituição. Em relação a negociações com outros grupos armados, há ameaça real de que as negociações não avancem. Claro que esse rompimento teria custos internos e externos. Se ele deixar de negociar com as guerrilhas remanescentes, os sequestros e ataques à indústria petrolífera cairão na conta dele”, avalia o analista político Juan Fernando Londoño, ex-vice-ministro do Interior.

Na avaliação do especialista, hoje a união das forças antiuribistas não seria capaz de bater Duque, ao contrário do que ocorreu na última votação presidencial, que deu a Juan Manuel Santos seu segundo mandato. Na ocasião, Óscar Zuluaga, o candidato de Uribe, venceu no primeiro turno e foi derrotado na votação decisiva.

Desta vez, o cenário é diferente. Primeiro porque Duque tem se mostrado uma figura conciliadora, que se apresenta como “o novo”, respeita os rivais e complementa a agressividade tradicional do uribismo. O candidato de 41 anos, advogado cuja única experiência política é um mandato como senador, de 2014 a 2018, tem colocado em sua agenda temas como cultura, estímulo a pequenas empresas e redução de impostos, que também fogem ao ideário clássico de Uribe. Outra razão para Duque aparecer como favorito é o passado de seu principal rival. 

Ex-guerrilheiro do grupo M-19 e ex-prefeito de Bogotá, Gustavo Petro surpreendeu ao colocar a esquerda pela primeira vez em condições de chegar à presidência em um país historicamente governado pela direita e aliado dos EUA. Todas as pesquisas indicam uma disputa de segundo turno, em 17 de junho, entre ele e Duque. Mas, em todas, o uribista leva vantagem. 

Um dos motivos é a associação de Petro com a guerrilha. Embora ele não tenha aderido à luta armada, seu grupo foi o responsável pela tomada do Palácio da Justiça colombiano, em 1985, que terminou com a morte de cerca de 100 pessoas.

O candidato da esquerda tem seu melhor desempenho em áreas como Bogotá, Caribe e Pacífico. Em regiões como Medellín e Cúcuta, ele sofre alta rejeição.

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