Discrição marca retirada do Iraque

Temor de ataques da insurgência com a aproximação do fim do prazo, fixado por Obama para o dia 31, motivou antecipação da saída

Denise Chrispim Marin CORRESPONDENTE/ WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2010 | 00h00

Os EUA mantiveram silêncio, ontem, sobre a operação de retirada de suas tropas de combate do Iraque, concluída na noite de quarta-feira, com o envio da 4.ª Brigada de Combate para o Kuwait. A versão oficial, reiterada várias vezes pelo próprio presidente americano, Barack Obama, e pelos comandantes militares indicava que a saída do contingente ocorreria no dia 31.

Ontem, Obama e o comando do Pentágono não se pronunciaram sobre a questão, em uma atitude que remete ao cenário de insegurança que ainda prevalece no Iraque. Recentemente, o ex-embaixador americano em Bagdá, Ryan Crocker, colocou em dúvidas a capacidade de o país, sozinho, controlar a violência local.

Segundo Rosiland Jordan, correspondente em Washington da TV Al-Jazira, do Catar, o fato estranho de toda a operação de retirada é o silêncio do presidente. "Nunca ouvimos Obama falar nisso", afirmou.

Ontem, o porta-voz da Casa Branca, Bill Burton, limitou-se a dizer que os EUA "deixaram o Iraque pronto para cuidar de sua própria segurança". Mas, contrariando a versão oficial, Burton também disse que ainda há forças de combate remanescentes.

"Posso dizer que há mais tropas que serão retiradas do país durante as próximas duas semanas", afirmou Burton, ao ser questionado sobre as notícias vindas de Bagdá de que as últimas forças de combate americanas haviam saído do Iraque.

Tecnicamente, cerca de 6 mil soldados de combate ficarão no Iraque até, no máximo, dia 31, o prazo em que a Operação Iraque Livre - nome oficial da guerra que durou sete anos e deixou 4.415 americanos mortos - será finalizada. Esses remanescentes não executarão missões de combate, mas apenas tarefas logísticas e de suporte técnico. No dia 1.º, conforme acordo assinado entre os EUA e o Iraque, entra em vigor a Operação Novo Amanhecer.

Essa nova fase terá como foco a cooperação civil, a ser conduzida pelo Departamento de Estado, e a preparação das forças de segurança iraquianas. Para isso, 50 mil soldados americanos continuarão no Iraque até 31 de dezembro de 2011. Para Rosiland, não há dúvidas de que já não há mais forças de combate americanas no Iraque, ao contrário do que disse Burton.

O segredo sobre a operação deveu-se principalmente à questão de segurança. O transporte dos soldados, iniciado no fim de semana, foi feito por terra, em jornadas de dois dias pelo deserto até o Kuwait. Comboios de apoio e de segurança acompanharam o trajeto. Uma reportagem do Serviço de Imprensa das Forças Americanas revelou que os soldados da 4.ª Divisão não sabiam que seriam retirados em caminhões - todos fechados, sem janelas. "Pensei que pegaríamos um avião", afirmou o engenheiro Adam Porter, da 4.ª Brigada de Combate.

O governo iraquiano estava devidamente informado sobre a partida. A imprensa internacional presente no Iraque também sabia da operação, segundo Rosiland. Mas cumpriu um compromisso com o Pentágono de embargar as informações sobre a retirada das forças de combate até as 18h30 (19h30, horário de Brasília) de quarta-feira.

PARA LEMBRAR

A retirada das tropas americanas do Iraque foi uma promessa de campanha do presidente Barack Obama. No auge das operações, os EUA chegaram a ter 140 mil soldados no país. A partir de setembro, ficarão com 50 mil, que terão funções de treinamento e logística. O objetivo da Casa Branca é usar parte do efetivo que estava no Iraque na guerra contra o Taleban e a Al-Qaeda, no Afeganistão.

FIM PRÓXIMO

Tropas remanescentes

Pouco mais de 50 mil militares Americanos permanecerão no Iraque cumprindo tarefas de treinamento e assessoramento das forças de segurança iraquiana

Estabilidade interna

Eleições de março terminaram com as coalizões do ex-premiê Iyad Alawi e do premiê Nurial-Maliki (foto) empatadas. Até hoje, não chegaram a acordo para formar um governo

Retirada total

O cronograma de retirada das tropas americanas do Iraque prevê que nenhum soldado dos EUA deverá permanecer no país após dezembro de 2011

Vitória relativa

Arsenais de destruição maciça, argumento inicial para a invasão, nunca foram encontrados. O maior triunfo dos EUA no Iraque, porém, foi a derrubada de Saddam Hussein, em abril de 2003

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