Discriminação é disfarçada pelo adjetivo 'socialista'

Conservadores radicais dissimulam racismo ao criticar políticas sociais de Obama e ao chamá-lo de muçulmano

WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

05 de novembro de 2012 | 02h04

Parte do preconceito implícito contra o presidente Barack Obama vem acompanhado de dois boatos: chamá-lo de socialista e de muçulmano, apontam analistas e militantes de direitos civis. Os dois adjetivos são cunhados com frequência pela extrema direita republicana, em especial pelo Tea Party, sua facção mais radical. Outra crítica, a de que ele não teria nascido nos EUA, foi desmontada pela Casa Branca com a divulgação de sua certidão de nascimento.

O adjetivo socialista vem acompanhado pela crítica a programas sociais de seu governo, como o cupom de alimentação, o seguro-desemprego e a assistência médica gratuita aos carentes. O presidente ampliou os gastos nessas áreas para suavizar o impacto da crise econômica e do desemprego elevado. A crítica a esses programas, no entanto, não é recente. Em 1976, quando disputava a nomeação republicana para a Casa Branca, Ronald Reagan chamou de "rainhas da assistência social" as mães solteiras negras.

Em uma sociedade que divide seus membros entre "ganhadores" e "perdedores", uma boa parte acredita não haver justiça em fazer os primeiros contribuírem com a negligência dos segundos. Essa mentalidade foi expressa pelo candidato republicano Mitt Romney em evento de arrecadação de fundos de campanha em maio, em Boca Raton, na Flórida. Na ocasião, ele dissera que 47% dos eleitores de Obama são "dependentes do governo", "irresponsáveis" e "não pagadores de impostos". À sua forma, Romney repetiu a declaração de Reagan.

Racismo. "Mitt Romney é racista. Quando ele fala das pessoas que vivem da assistência social do governo, embora saibamos que haja brancos entre elas, ele quis falar dos negros", afirmou Iven Lawson, negro de 32 anos que trabalha em atendimento a clientes de uma empresa em Denver, no Colorado.

Ao explicar o voto conservador do norte da Flórida, o historiador John Pickering, da Universidade de Lynn, o atribui ao passado escravista que remonta à Guerra Civil (1861-1865). Hoje, o racismo permeia o sul dos EUA, especialmente entre os mais velhos. "Observo isso nas conversas que tenho com muita gente. É triste, mas é um fato", afirmou. "Ter um candidato latino, como o senador Marco Rubio, nas próximas eleições, é algo mais palatável do que um negro."

Em diferentes cantos dos EUA, o Estado constatou expressões implícitas de racismo direcionado ao presidente. O caso mais gritante surgiu em Springfield, em Virgínia, onde o veterano da Marinha americana e ex-funcionário do Pentágono John Young chamou Obama de "porco incompetente". Porco é, na tradição americana, o último e mais desprezível dos animais da fazenda, cuja carne era destinada aos escravos.

"Temos de tirar aquela coisa incompetente que temos como presidente. Ele é um porco incompetente. É um bêbado e drogado", disse Young enquanto esperava por um comício do republicano Romney, em setembro. "Ele se identifica como negro em seus livros."

Desemprego. As oportunidades, entretanto, continuam menores para os negros do que para os brancos nos EUA. A taxa de desemprego total de outubro ficou em 7,9%. Entre brancos, o índice é de 7%, menor do que a média nacional. Entre os negros, é quase o dobro, de 14,3%. O desemprego entre os jovens brancos, de 16 a 19 anos, alcança 20,6%. No entanto, entre os negros chega a 40,5%.

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