Michael Reaves/The Denver Post via AP
Michael Reaves/The Denver Post via AP

Discurso anti-imigrante pode custar caro a Trump

Muitos latinos buscam se registrar como eleitores para evitar eleição de magnata republicano à presidência dos EUA

Renata Tranches, O Estado de S. Paulo

02 de julho de 2016 | 18h39

Se no Reino Unido a imigração foi um fator crucial para a decisão que tirou o país da União Europeia (UE), nos EUA ela mexe com a corrida presidencial e afetará diretamente os resultados das urnas. Segundo pesquisas e especialistas no assunto, a corrida à Casa Branca será a eleição americana mais diversa etnicamente da história, graças à grande miscigenação no país.

Enquanto em território britânico os imigrantes temem por seu futuro em razão das novas regras, nos EUA, o discurso hostil e contrário à imigração do provável candidato republicano Donald Trump provocou uma corrida dessas pessoas para obter cidadania e se registrar como eleitor. O plano é tentar impedir que o magnata, que ameaça levantar um muro na fronteira com o México e barrar muçulmanos, se torne presidente.

A advogada de Seattle, especialista em imigração, Karol Brown tem atendido centenas de casos como esse, especialmente de pessoas da comunidade latina. Segundo ela, seus clientes são muito claros: querem obter a cidadania americana para votar contra Trump.

Nos EUA, o voto não é obrigatório, mas é preciso se registrar antes das eleições. Por isso, é alto também o índice de latinos aptos a votar procurando se registrar com a mesma motivação. “Se os latinos nos EUA quiserem evitar esse tipo de política (defendida por Trump), é crucial que eles se registrem e conversem com outros cidadãos americanos sobre a razão de votar contra ele (Trump)”, afirmou Karol, em entrevista ao Estado.

A conclusão de que os eleitores em 2016 serão os mais diversos etnicamente é do centro de pesquisa Pew Research. Os EUA têm 225,77 milhões de eleitores, um aumento de 5% com relação a 2012. O crescimento mais expressivo foi o da comunidade hispânica. Segundo a pesquisa, ele foi de 17%, o grupo que mais cresceu, à frente dos asiáticos (16%) e negros (6%). A taxa de crescimento do eleitorado branco nesse período foi de 2%. “Um a cada três eleitores (32%) será hispânico, negro, asiático ou de outra minoria étnica. É um aumento de 29% com relação às eleições de 2012”, explica a advogada, citando a pesquisa. 

Cientista político do Queens College, de Nova York, Ron Hayduk diz que há uma “onda” de pessoas nascidas em outros países se naturalizando, se registrando e votando nos EUA. “Isso está acontecendo entre latinos, asiáticos e outros grupos minoritários de imigrantes em geral”, afirmou. Para ele, o discurso de Trump e também de seu antigo adversário Ted Cruz durante as primárias afastou esses grupos dos republicanos e os empurrou na direção contrária. “Democratas se beneficiarão desse movimento.”

O senador democrata Bernie Sanders, que perdeu matematicamente as chances de se tornar candidato, mas segue na disputa, alertou para o fato de Trump tentar se beneficiar do mesmo sentimento que, no Reino Unido, levou ao Brexit. “Isso deve fazer soar o alarme do Partido Democrata”, disse. Para ele, o elemento central da mensagem do magnata, assim como na linguagem utilizada pelos partidários do Brexit, se baseia na “demagogia, intolerância e sentimento anti-imigração”. 

O temor dos latinos de que Trump se torne presidente atinge também os brasileiros. A ex-conselheira brasileira em Connecticut Ester Sanches Naek contou que tem ajudado muitos que estão “correndo para votar”. “Estou trabalhando com uma brasileira de 68 anos. Ela já tem o green card há dez anos, mas por não saber ler e falar inglês, não está conseguindo obter a cidadania. Ela quer exercer seu direito de votar. O discurso do Trump criou uma indignação muito grande”, contou.

Segundo Ester, que trabalha para uma organização que arrecada dinheiro para a campanha de Hillary Clinton, seu marido, que é paquistanês, antes não se preocupava em votar nos EUA, mas este ano vai se registrar.

O caminho para obter a cidadania nos EUA é longo e exige um exaustivo processo. O requisito é obrigatório para uma pessoa se tornar eleitor americano. Mas existem correntes que defendem que os imigrantes não cidadãos deveriam também ter o direito a voto. 

Hayduk representa uma delas. Ano passado, ele publicou um artigo dizendo que a medida seria “justa”. O cientista político ajuda o grupo Coalition to Expand Voting Rights (Coalizão para Expandir o Direito ao Voto), que ajuda na inserção política de imigrantes.

“É mais do que justo que os imigrantes votem, ao menos nas eleições locais e estaduais. Como todo mundo, eles pagam impostos, contribuem para suas comunidades, escolas e economia”, afirmou. Historicamente, segundo ele, imigrantes já puderam votar em eleições locais, estaduais e, alguns casos, nacionais em ao menos 40 dos 50 Estados americanos. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.