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Discurso de Bibi divide grupos pró-Israel

Decisão do premiê de falar ao Congresso dos EUA é chave em eleições israelenses

CLÁUDIA TREVISAN, CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

01 Março 2015 | 02h04

O primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, ocupará o plenário do Congresso americano na terça-feira para protagonizar um espetáculo inédito na história dos EUA: o de um líder estrangeiro apelando diretamente ao Parlamento contra a política externa de seu presidente - no caso, Barack Obama. Sua artilharia estará apontada para as negociações que tentam conter as ambições nucleares do Irã, uma das prioridades do governo de Washington.

A decisão de Netanyahu de falar ao Congresso, apesar da oposição da administração Obama, jogou a relação bilateral em uma de suas piores crises, provocou uma cisão no lobby pró-Israel nos Estados Unidos e dividiu a opinião pública israelense. A menos de duas semanas de eleições em Israel, o discurso de Netanyahu é visto por seus adversários como uma tentativa de influenciar os resultados à custa do relacionamento com o mais importante aliado do país.

"O primeiro-ministro vai falar a duas audiências: os eleitores de Israel, mas também o Congresso dos EUA, que ele vê como sua última chance de bloquear um acordo que considera ruim e perigoso", disse ao Estado William A. Galston, professor da Universidade de Maryland e acadêmico do Brookings Institution.

Segundo ele, Netanyahu desistiu de tentar influenciar a administração Obama e decidiu pedir diretamente ao Congresso que inviabilize ou bloqueie a implementação de um eventual acordo sobre o programa nuclear do Irã.

EUA, Rússia, China, França, Grã-Bretanha e Alemanha - grupo chamado de P5+1 - esperam definir até o fim do mês as bases de um compromisso com o Irã que detenha a capacidade de Teerã de produzir armas atômicas ou pelo menos atrase essa possibilidade em uma década.

Os negociadores já deixaram claro que o eventual acordo permitirá que o Irã continue a enriquecer urânio em patamares compatíveis com a geração de energia. Netanyahu não aceita a concessão e defende a eliminação total da capacidade do Irã de vir a fabricar bombas nucleares no futuro, o que implicaria o veto ao enriquecimento de urânio, algo que Teerã rejeita.

As diferentes posições provocaram um choque entre as políticas externas dos governos de Israel e dos EUA, que estará exposto durante o discurso de Netanyahu. Obama e integrantes de sua administração acusam o primeiro-ministro de partidarizar a relação bilateral e se unir ao Partido Republicano em seus ataques ao governo democrata.

Em entrevista à rede PBS na terça-feira, a chefe do Conselho de Segurança da Casa Branca, Susan Rice, condenou a decisão do premiê e disse que ela contamina os laços entre os dois países com posições partidárias. "Isso não é apenas lamentável, acho que é destrutivo do tecido do relacionamento (bilateral)", declarou Rice.

Netanyahu foi convidado a discursar em uma sessão conjunta do Congresso pelo presidente da Câmara dos Deputados, o republicano John Boehner, que defendeu sua decisão na quinta-feira. "O povo americano e os dois partidos no Congresso sempre estiveram ao lado de Israel e nada, nem ninguém, pode entrar no caminho", afirmou. O Partido Republicano se opõe às negociações com Teerã e tenta aprovar sanções contra o Irã que podem inviabilizar um acordo.

O embate entre Netanyahu e Obama colocou os congressistas democratas em uma situação delicada, observou Galston, do Brookings Institution. "Eles estão sendo forçados a escolher entre seu apoio a Israel e sua lealdade ao presidente. Muitos democratas consideram o discurso uma ofensa a Obama."

A opção é especialmente árdua diante do peso da comunidade judaica nas contribuições financeiras nas eleições americanas. Seis dos dez maiores doadores para as campanhas legislativas em 2014 eram judeus americanos. Nem todos concordam com as posições de Netanyahu, mas alguns verão a presença - e os aplausos - dos parlamentares como um sinal de lealdade à causa israelense. O inverso se aplica às eventuais ausência ou falta de entusiasmo com as declarações do premiê.

A decisão de Netanyahu de desafiar Obama no Congresso provocou reações distintas nos dois principais grupos de lobby pró-Israel nos EUA. O principal deles, o American Israel Public Affairs Committee (Aipac), pressiona os parlamentares a ouvir Netanyahu. Na sexta-feira, o grupo J Street, que está à esquerda do Aipac, veiculou anúncios no New York Times e nas principais redes de TV americanas contrários ao pronunciamento de Netanyahu. "Envolver-se em política partidária americana pelas costas de nosso presidente eleito prejudica a relação EUA-Israel", diz um dos textos da peça publicitária.

Apesar de pesquisas mostrarem que a maioria dos israelenses acompanha o premiê em seu ceticismo em relação à negociação com o Irã, não está claro qual será o impacto do discurso nas eleições do dia 17. Pesquisas mostram que a população está dividida sobre o assunto, enquanto a oposição insiste na tese de que Netanyahu coloca em risco a mais importante relação do país para tentar obter vantagens eleitorais.

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