Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Discurso de Bolsonaro na cúpula do clima foi 'desperdício' de oportunidade para o País, diz Ricupero

Para o diplomata, pedido de repasse estrangeiro para viabilizar mudanças na área ambiental é 'desculpa para não fazer nada'

Entrevista com

Rubens Ricupero, embaixador

Bianca Gomes, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2021 | 05h00

A participação do presidente Jair Bolsonaro na Cúpula do Clima 2021 nesta quinta-feira, 22, não mudou a imagem do Brasil no exterior e foi o "desperdício" de uma oportunidade que o governo brasileiro tinha de repensar suas políticas ambientais, avalia o diplomata e embaixador Rubens Ricupero.

Em entrevista ao Estadão, o também ex-ministro criticou a solicitação de repasse estrangeiro para a preservação ambiental. "É uma desculpa para não fazer nada", afirmou ele, completando que o governo deveria, antes de pedir dinheiro, justificar o R$ 2,9 bi parados no Fundo Amazônia. Confira os principais trechos da entrevista: 

Como o sr. avalia o discurso do presidente na cúpula do clima?

Não houve novidade, ele já tinha adiantado as linhas gerais do discurso. A única coisa que chama a atenção é a mudança de discurso em relação ao que era antes. Agora, Bolsonaro se declara defensor do meio ambiente.

O que justifica a mudança?

Atribuo isso ao fato de ele estar em uma situação defensiva. 

O sr. acredita que os demais países acreditaram nesse discurso?

Não. Nem interna e nem externamente. O discurso seria novo se ele anunciasse alguma mudança. Mas ele não anunciou nada. Não há um cronograma de combate ao desmatamento, mudança do ministro do Meio Ambiente, ele não apresenta nada de novo. São palavras, palavras e palavras. É uma mudança que comparo ao uso de máscara na pandemia: um dia está usando a proteção, no outro está provocando aglomeração. Ou seja: não há mudança na prática, e o mesmo vale para a política de meio ambiente. O que me chama a atenção é que entre palavras e fatos não há nem um intervalo grande de tempo. Exemplo: Bolsonaro enviou a carta a Biden no dia 14 (prometendo eliminar desmatamento ilegal até 2030) e menos de 24h depois demitiu o superintendente da Polífica Federal que pediu a investigação de Salles. Ele não faz nada para aumentar sua credibilidade, apenas muda as palavras. 

O presidente poderia ter apresentado ações concretas, em vez de promessas?

Ele pediu recurso, mas não explicou por qual motivo não usa os R$ 2,9 bi do Fundo Amazônia que estão parados no BNDES por culpa do governo. Qual é a explicação? Por que precisa de mais dinheiro? Faltaram fatos, faltaram anúncios concretos, mudanças de política e uma explicação sobre o Fundo Amazônia. Por isso não há credibilidade no que ele anuncia. 

Em seu discurso, Bolsonaro ignorou todo o desmonte da área ambiental em seu governo. O sr. acha que ele poderia ter feito um 'mea-culpa'? 

Eu não imagino que ele faria isso. E tem mais: as partes do discurso, assim como da carta (a Biden), em que existe um autoelogio na verdade se referem a conquistas de governos anteriores. Ele cita a queda do desmatamento na Amazônia que ocorreu na época em que a Marina Silva era ministra, portanto no governo do PT. Ele quer receber crédito por uma conquista que é de um governo que ele abomina. O governo dele não tem crédito nenhum, só o aumento do desmatamento no primeiro e no segundo ano. E o desmatamento da Amazônia em março, que foi o pior do mês em 10 anos. Não há um fato, uma conquista que ele possa enumerar como própria.

O discurso na cúpula muda a imagem do Brasil? 

Em nada. Ao contrário, é até um desperdício de uma oportunidade, porque depois da derrota de Donald Trump, essa foi a melhor oportunidade que o governo brasileiro tinha de repensar suas políticas e apresentar alguma nova postura num foro com atenção mundial em que estavam todos os grandes líderes. E ele (Bolsonaro) jogou fora isso. Não aproveitou essa oportunidade de repensar a política que vem seguindo até aqui. 

O que achou do presidente condicionar a preservação ao repasse estrangeiro?

É uma desculpa para não fazer nada. Se fosse um problema de dinheiro, faltaria explicar à opinião pública sobre os quase R$ 3 bilhões parados. Eles não usam (o dinheiro do Fundo) porque discordam das regras. É um discurso mentiroso, fala em população indígena, em populações tradicionais, mas todos sabem que o que eles objetaram ao Fundo Amazônia era a presença de povos indígenas e da sociedades civil no Conselho que governa o Fundo.

Qual foi a importância da cúpula?

A cúpula marca a volta dos Estados Unidos à liderança mundial nessa área. E agora eles vão pressionar os outros países, pois adotaram uma meta ambiciosa (de cortar emissões de carbono pela metade até 2030). Em termos de resultado, esse é o começo do caminho. O ponto de chegada é a cop26, em novembro. O que se fez agora foi apenas um apelo para que os países façam um esforço de ir além do compromisso assumido no Acordo de Paris. 

Se o Brasil cumprir com aquilo que prometeu, pode melhorar sua imagem?

Teria condições até Glasgow (cop26). Mas, para isso, seria indispensável mudar a política. E não seria só uma mudança no titular do ministério, mas uma mudança de política: dar mais recursos ao ministério e combater efetivamente o desmatamento. 

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