Rodrigo Urzagasti/Reuters
Rodrigo Urzagasti/Reuters

'Discurso de Evo Morales está distante de pacificar situação' na Bolívia, diz socióloga

Enquanto presidente defende que não haverá segundo turno da eleição presidencial, após uma reviravolta nos resultados, população está cada vez mais polarizada

Entrevista com

Maria Teresa Zegada, socióloga

Carla Bridi, O Estado de S.Paulo

24 de outubro de 2019 | 08h00

A Bolívia passou por uma eleição presidencial no último fim de semana, onde o atual presidente Evo Morales, no poder desde 2006, luta para evitar um segundo turno no país, o que seria inédito, a fim de ser novamente reeleito. 

Segundo a Constituição boliviana, o vencedor em primeiro turno precisa obter 50% mais um dos votos válidos ou ao menos 40% do total com vantagem de 10 pontos porcentuais sobre o segundo colocado. Inicialmente, a diferença entre Morales e seu rival, Carlos Mesa, levava a um segundo turno, e após uma interrupção de quase 24 horas, a vantagem de Morales começou a aumentar, indicando que ele teria votos suficientes para ser reeleito ainda no primeiro turno, o que levantou denúncias de fraudes. 

A Organização dos Estados Americanos (OEA) criticou as suspeitas na contagem, e solicitou que o segundo turno seja feito no país, o que poderia reverter a vantagem do presidente. Manifestantes em apoio e contra Morales protestam desde segunda-feira, e diferentes setores decretaram greves para poder ir às ruas, o que levou o presidente a decretar estado de emergência na Bolívia. 

Para a socióloga Maria Teresa Zegada, pesquisadora do Centro de Estudos de Realidade Econômica e Social (CERES) da Bolívia, dificilmente o pedido da OEA vai acalmar os ânimos, já que o próprio presidente incentiva a polarização no país e em anos anteriores já se mobilizou para alterar os termos constitucionais para permanecer no poder. "Há uma sensação de incerteza muito grande gerada por essa situação de irregularidade, não se pode qualificar isso de outra maneira", relata Zegada.

A OEA questiona a apuração do resultado eleitoral na Bolívia e pede um segundo turno. Você acredita que isso vai surtir algum efeito?

Isso tem como raíz uma ação eleitoral, digamos, irregular, e poderia corrigir os resultados, torná-los mais transparentes e claros, poderia ajudar a atenuar as dúvidas sobre o que está acontecendo. Agora, por outro lado, na sociedade, os posicionamentos estão em confronto, há um cenário contaminado, não somente com números e cifras, mas também com a publicação de uma série de fake news e denúncias falsas, o que contaminou bastante o cenário midiático, sobretudo nas redes sociais. Então, as pessoas não estão conseguindo diferenciar o que é verdade do que é mentira. Há um posicionamento claro, esse contexto eleitoral impôs que a população e os políticos assumam posições muito fechadas. Há esperança, evidentemente, que um movimento para clarificar os resultados eleitorais possa de alguma maneira ajudar a pacificar o país. Mas não estou segura de que isso seja totalmente efetivo, por esta situação toda. 

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Até o momento está muito claro que Morales não vai aceitar passar por um segundo turno, e deseja permanecer no poder?

Sim, está claríssimo, não somente na situação que se passa, mas ele também disse explicitamente, várias vezes, e também os movimentos sociais que o respaldam disseram que não permitiriam um segundo turno, porque significaria afastá-lo do poder. Ele não vai colocar em risco sua situação, porque há discrepância sobre os números e as porcentagens estão próximas dos números estipulados pela regra que habilita o segundo turno. Para ele significaria um risco muito grande ir ao segundo turno, estão apostando em consolidar os votos no primeiro turno. Porém, como houve o problema da renúncia do vice-presidente do Tribunal Supremo Eleitoral, já que os resultados foram colocados em dúvida, evidentemente precisa-se de uma clarificação para reforçar a legalidade do processo eleitoral. Sabemos que em várias ocasiões Morales interpretou as leis de outra maneira e até burlou as normas constitucionais para poder se manter no poder. Isso é só mais uma situação em que ele quer reforçar a imagem de que na Bolívia há a permanência no poder. 

O que pode acontecer a partir de agora com a radicalização do discurso de Morales e o decreto do estado de emergência?

No momento há um estado de mobilização permanente na sociedade. O que pode suceder são atos de violência e enfrentamento, porque não saíram somente os setores sociais que rechaçam a vontade do governo de permanecer no poder no primeiro turno, mas também saíram às ruas aqueles que defendem o presidente Morales. Então são dois setores da sociedade civil que se confrontam nas ruas e tomaram medidas muito radicais, pelo menos em seus discursos, que não pretendem negociar seus posicionamentos. O que acontece é que o discurso de Morales está distante de pacificar a situação. O que fez foi aguçar mais a reação dos setores sociais que participam dos protestos. 

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Os apoiadores do presidente Morales são em maioria dos setores indígenas e movimentos sociais. Há algum outro grupo que tenha mudado de lado desde as últimas eleições?

A base do movimento socialista é feita basicamente dos sindicatos de camponeses e dos movimentos indígenas. Mas, nos últimos dois anos, vários setores indígenas se distanciaram do movimento socialista, pelo tipo de políticas que o governo foi assumindo. Muitos setores indígenas assumiram uma posição crítica. A base social mais sólida são os sindicatos de camponeses, que são vários. E, antes desse processo, ele foi ganhando o apoio de alguns setores empresariais. Mas neste momento de polarização tão forte que se instalou na Bolívia, o núcleo duro do socialismo está com sindicatos obreiros, grêmios. Apesar de se reduzir a esses setores, eles têm muita força, sobretudo na estrutura sindical e a verticalidade que existe para manifestações, há uma disciplina muito grande nesses setores, então entram de maneira muito massiva quando se solicita suas participações.

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