REUTERS/Mariana Bazo
REUTERS/Mariana Bazo

Discurso de linha dura favorece filha de Fujimori

Líder nas pesquisas para o segundo turno presidencial de domingo no Peru, Keiko defende em sua campanha pena de morte para criminosos sexuais

Luiz Raatz, Enviado Especial / Lima, O Estado de S. Paulo

02 Junho 2016 | 05h00

Quando Keiko, filha do ex-presidente Alberto Fujimori, perdeu o segundo turno da eleição de 2011 para Ollanta Humala, tinha um partido recém-formado, um plano de governo difuso e a segunda maior bancada do Congresso. Cinco anos depois, ela surge à frente de um partido estruturado em alianças no interior, com maioria  no Legislativo e um discurso que a torna favorita para a disputa à presidência do Peru no domingo.

E traz um discurso que lembra os pilares do fujimorismo clássico:  mão pesada contra a violência urbana – apontada pelos eleitores como o principal problema do país – e rigor fiscal.

Iván Vásquez Rodríguez, de 50 anos, trabalha como vigilante em um cassino em Miraflores, área nobre de Lima. Há três meses deixava o trabalho para voltar para o bairro de Chorrillos, no sul da capital, quando foi abordado por dois homens armados. Eles o ameaçaram e exigiram seus pertences. Diante da negativa, dispararam contra ele e fugiram.

“A delinquência é o pior problema do país. O segundo é a má qualidade da educação”, disse ao Estado. “Votarei em Keiko porque ela vai agir contra os delinquentes.”

Neydner Santa Cruz, de 20 anos, trabalha como distribuidor de botijões de gás na capital peruana. Ele diz que os casos de violência são mais frequentes na periferia da cidade, como o distrito de Pachamac, onde ele vive. “Um dia estava voltando para casa e me roubaram a carteira e o celular”, afirmou  ele, que também votará em Keiko. “O principal problema são os viciados em droga que agem nos arredores da cidade.”

Segundo o Instituto Nacional de Estatística e Informática do Peru (Inei), em relatório trimestral divulgado em março, 88,4% dos peruanos acreditam que será vítima de algum crime nos próximos 12 meses. Ainda de acordo com o Inei, 28,6% dos peruanos sofreram algum tipo de violência no período compreendido entre julho e dezembro de 2015, alta de 2,9 pontos porcentuais na comparação com o segundo semestre de 2014.

Cientistas políticos peruanos consultados pelo Estado dizem que o discurso do combate ao crime “custe o que custar” faz parte do apelo de Keiko junto ao eleitorado – ela lidera as pesquisas com ao menos seis pontos de vantagem para o rival, o economista Pedro Pablo Kuczynski. Além disso, ela usa o discurso do pai, responsável pela derrota de grupos terroristas no país nos anos 90 ao  custo de algumas garantias individuais.

“O fujimorismo clássico traz o conceito da eficiência: para alcançar um objetivo são aceitáveis alguns danos colaterais. Fujimori aplicou uma política eficaz contra o terrorismo, mas com abusos de direitos humanos que saíram de controle”, explica   o cientista político Arturo Maldonado.

Uma das propostas recentes de Keiko  é a aplicação da pena de morte para pedófilos. “Para lutar contra a delinquência, são necessárias medidas drásticas”, disse a candidata. “Um violador de crianças não merece viver.” Outra proposta da candidata é envolver o Exército no combate à criminalidade. “A analogia é a mesma do combate ao terror: o sacrifício de certos direitos por um bem maior. E a população parece disposta a isso”, afirmou Maldonado.

O cientista político Eduardo Dargent acrescenta que, caso queira aplicar essas medidas controvertidas que ecoam as estratégias do pai, Keiko tem o caminho livre em virtude da estratégia política bem construída que a levou ao favoritismo na eleição de domingo.

“Como ela, se eleita, terá maioria no Congresso, e temos partidos fracos, um judiciário vacilante e uma imprensa que depende de poderes econômicos, a moderação do fujimorismo dependerá de sua própria liderança”, explicou. O novo traz muito do velho e é trágico que estejamos em suas mãos. A ausência de contrapesos democráticos pode não nos trazer de volta aos anos 90, mas não deixa de ser preocupante.”

O partido de Keiko, Forza Popular, foi criado em 2011 para a disputa das eleições. Conta com o apoio de diversos antigos auxilares de Fujimori, alguns deles envolvidos em denúncias de corrupção, como o deputado Joaquín Ramírez, acusado de corrupção e narcotráfico.

“É um país onde os partidos estão em crise desde Fujimori e é curioso que a filha dele que tenha escolhido o caminho distinto ao do pai, investindo na formação do partido”, afirmou Maldonado. “Na derrota de 2011 ela percebeu que precisava de um partido forte e é por isso que recorreu todo o país aliando-se a políticos locais.”

Essas alianças possibilitaram a Keiko uma maioria folgada no Parlamento: ela terá 73 dos 130 deputados e a segunda maior bancada ficará com apenas 20 parlamentares.” Para ter a maioria, você precisa de bons candidatos no interior”, lembrou Dargent.

Protestos. Keiko ironizou nesta quarta-feira os protestos que, segundo a imprensa peruana, reuniram 100 mil pessoas em todo o país contra sua candidatura e atacou Kuczynski.

 Eu teria preferido que a marcha fosse em favor do senhor Kuczynski e não contra mim”, disse ela durante um comício em Huacho. “Lamento as marchas que promovem o ódio enquanto estou disposta a promover a conciliação.”

 A candidata também ironizou o fato de Kuczynski a ter apoiado na eleição de Ollanta Humala, em 2011. “Antes PPK me apoiava, agora respalda manifestações contra mim”, disse Keiko. “Há cinco anos me apoiava (no segundo turno das eleições de 2011) e agora se junta a atos cheios de insultos contra mim.”

Kuzczynski recebeu na terça-feira o apoio da deputada Verónika Mendoza, terceira colocada no primeiro turno da eleição com 16% dos votos. Ele chegou a cogitar de participar do ato contra Keiko na Praça San Martín, no centro de Lima, mas desistiu alegando que “seria antidemocrático manifestar-se contra a candidatura da rival”. Em 2011, no segundo turno entre Keiko e Ollanta Humala, ele apoiou a filha de Fujimori.

 Creio que o protesto é legítimo, mas participar dele faria parecer que não quero que a eleição se realize, o que seria incorreto de minha parte", disse.

 As manifestações de terça-feira ganharam força em relação aos últimos atos contra Keiko. Assim no segundo turno de 2011, quando o voto antifujimorista definiu a eleição, as mobilizações têm aumentado na reta final.

 O ato de terça-feira reuniu aposentados, estudantes e sindicalistas, com palavras de ordem contra Keiko. Os manifestantes dizem que a candidata se uniu a ex-assessores do pai, muitos suspeitos de corrupção.

 Ainda nesta quarta-feira, uma juíza de Lima abriu caminho para a perda de imunidade parlamentar de Joaquín Ramirez, deputado aliado de Keiko suspeito de corrupção e tráfico de drogas.

 PPK faria um comício em Lima na noite desta quarta-feira. Amanhã, em Arequipa, encerra a campanha. Keiko, que tem feito campanha no interior do país, tem um showmício marcado também em Lima nesta quinta-feira.

 

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