REUTERS/Mary F. Calvert
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Discurso de Obama busca falar sobre terror nos EUA sem causar alarme

Ao se preparar para fazer seu último grande pronunciamento à nação, no discurso do Estado da União, presidente precisou equilibrar a abordagem ao tema que assombra os americanos atualmente com sua posição contrária ao alarmismo

O Estado de S. Paulo

12 Janeiro 2016 | 20h46

WASHINGTON - Quando o presidente dos EUA, Barack Obama, se preparava hoje para falar à nação em seu último discurso sobre o Estado da União, ele mostrava uma preocupação muito específica: assegurar ao público, como costuma fazer, de que o país empreende enormes esforços para proteger os americanos do terrorismo. Mas, ao mesmo, com o cuidado necessário para não causar pânico. 

O presidente teve a preocupação de evitar alarmismo, por exemplo, não reconhecendo como é difícil para os serviços secretos e para a polícia detectar indivíduos que se radicalizaram, como os que abriram fogo numa festa em San Bernardino, Califórnia. Segundo consta, Obama é favorável a essa visão, compartilhada por muitos veteranos do combate ao terrorismo, os quais afirmam que a ansiedade deformou a perspectiva da sociedade americana. 

Por outro lado, esse também é um argumento perigoso no momento em que as pesquisas mostram que o medo do terrorismo aumentou mais do que em qualquer outra época depois de 11 de setembro de 2001. Por isso, os críticos afirmam que Obama não está levando suficientemente a sério a ameaça.

“Estamos dando uma ênfase excessiva ao terror? Sim”, disse Juliette Kayyem, que foi vice-secretária de Segurança Nacional no governo Obama. “Mas não há muito que o governo possa fazer a respeito.” 

O efeito sobre o imaginário nacional americano é evidentemente mais poderoso do que outros perigos que a população aceitam diariamente. “Não pode ser comparado aos ataques de tubarões”, disse Juliette.

Essa dinâmica frustra Obama quando tenta explicar sua estratégia diante da ameaça. Numa recente reunião não oficial com vários jornalistas, ele enfatizou que o Estado Islâmico (EI) não ameaçou os EUA de uma maneira fundamental.

Consequentemente, disse, o perigo não merece uma resposta em termos militares, que envolva tropas terrestres americanas. E acrescentou que enviaria um número consistente dessas forças ao Oriente Médio somente no caso de um ataque terrorista nos EUA tão catastrófico que praticamente paralisasse o país de medo.

O presidente se mostra mais cuidadoso na exposição dessa análise em público, porque está consciente de que seus comentários passados fizeram com que parecesse que ele estava subestimando a ameaça. 

Quando Obama chamou inicialmente grupos como o EI de “calouros” do terrorismo, a impressão que deu foi que ele não estava atinando para o seu alcance em termos de destruição, mesmo depois que se apoderou de partes do Iraque e da Síria. Quando, mais recentemente, ele disse que o grupo havia sido “contido”, tivemos a impressão de que tinha perdido a noção da realidade, considerando os ataques em Paris e San Bernardino que se seguiram.

Sua comedida resposta inicial a esses ataques minou ainda mais a confiança da nação, e os próprios democratas consideraram sua estratégia inadequada. Pesquisas de opinião realizadas mais tarde mostraram que a maioria dos americanos desaprovava sua política de combate ao terrorismo. 

“Embora eu discorde de muitas coisas a respeito da estratégia do presidente, compreendo que tipo de equilíbrio ele tenta encontrar”, disse Frances Fragos Townsend, uma assessora de contraterrorismo do presidente George W. Bush. “Só acho que ele está excessivamente inclinado nessa direção”.

Obama admitiu aos jornalistas que foi lento na resposta aos temores da nação após os ataques de Paris e San Bernardino, na Califórnia. E disse que talvez não tenha reconhecido plenamente a ansiedade, primeiramente por estar no exterior na ocasião – e, em geral, por não assistir muito à TV a cabo.

Mais tarde, tentou modificar sua resposta com linguagem mais dura e com novos acontecimentos para mostrar sua determinação. Procurou argumentar de maneira um pouco diferente, mas isso provocou menosprezo à campanha entre os republicanos, que o definem como “lamentavelmente fraco”. 

Enquanto os republicanos prometeram destruir o inimigo, Obama alertou contra uma reação exagerada, como no caso da proposta de Donald Trump de proibir temporariamente o ingresso de muçulmanos estrangeiros.

Juan Carlos Zarate, um outro assessor de combate ao terrorismo de Bush, disse que, de certo modo, Obama “está certo em não exagerar a sensação de ameaça” para evitar que seja usada pelos terroristas. 

Mas acrescentou que parece que Obama retrocedeu a uma mentalidade anterior ao 11 de Setembro e se ele esperar a ocorrência de um ataque mais devastador para tomar medidas mais sérias, então, poderá ser tarde demais. / PETER BAKER, DO NEW YORK TIMES

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