Discurso de ódio aos Estados Unidos ressurge na capital do Irã

O refrão "Morte aos Estados Unidos" ressoou novamente em toda a capital iraniana na sexta-feira, 11, uma semana depois de, aparentemente, esse slogan ser esquecido tendo em vista uma possível distensão nas relações entre Irã e Estados Unidos.

Ramin Mostaghim e Patrick J. McDonnell* - O Estado de S. Paulo,

14 de outubro de 2013 | 23h05

Mas nas orações da sexta-feira o aiatolá Ahmad Khatami, de linha radical, chamou o presidente Barack Obama de "mentiroso" e decidiu reviver o mantra "Morte aos Estados Unidos", incitando os fiéis com denúncias contra o "Grande Satã", outro termo que ele repetiu com uma considerável satisfação. "Nos últimos 35 anos os americanos tentaram derrubar o sistema islâmico mas fracassaram", disse Khatami aos fiéis numa cerimônia religiosa muito coreografada, referindo-se à Revolução Islâmica, que ocorreu um ano antes de acordo com o calendário persa.

A retomada daquele refrão reflete as profundas divisões dentro do establishment iraniano quanto à perspectiva de uma distensão com Washington e o Ocidente.

Na semana passada, após os comentários conciliadores do novo presidente do país, Hasan Rohani, nas Nações Unidas, o refrão "Morte aos Estados Unidos" não era ouvido nas cerimônias religiosas. Um influente orador teria até mesmo repreendido um fiel que se aventurou a pronunciar a frase. "Pronunciei alguma palavra de ordem que vocês estão repetindo?" perguntou o ex-ministro da Cultura Saffar Harandi à multidão, tendo ele próprio evitado mencionar a frase.

A mensagem era no sentido de que avivar as chamas do antiamericanismo não constava do programa oficial uma vez que o Irã pretendia uma aproximação com seu velho antagonista em Washington. E o antigo lema começava a se tornar politicamente incorreto, pelo menos nos círculos iranianos moderados.

E de fato, Faezeh Hashemi Rafsanjani, a controvertida filha do ex-presidente Ali Akbar Rafsanjani, mentor de Rohani, sugeriu publicamente que o refrão fosse apagado do discurso oficial - mas que os interesses do país deviam ser levados em consideração antes de qualquer decisão importante ser tomada.

Contudo, em seu sermão na sexta-feira na Universidade de Teerã, o aiatolá Khatami reincorporou o lema "Morte aos Estados Unidos", dando aos fiéis uma perspectiva histórica do refrão, falando sobre a sua origem e como era considerado importante pelo falecido aiatolá Khomeini, que liderou a Revolução Islâmica. O inflamado líder rejeitou qualquer medida com vistas a moderar os vitupérios contra os Estados Unidos.

Em sua mensagem final aos peregrinos muçulmanos antes da sua morte, Khomeini fez menção aos Estados Unidos pelo menos 46 vezes "com ódio", sublinhou Khatami.

"A pergunta é esta: nos últimos 35 anos os Estados Unidos se tornaram menos satânicos?", indagou ele.

Mas, refletindo a posição do establishment, Khatami aplaudiu o trabalho da equipe diplomática iraniana em Nova York, mesmo que o seu comportamento em parte "não tenha sido apropriado".

O líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei também endossou os gestos de conciliação do novo presidente, mas por outro lado admitiu que houve momentos "não apropriados". Aparentemente ele estaria se referindo ao evento que marcou a visita de Rohani - um telefonema de 15 minutos de Obama para o presidente iraniano, o contato de mais alto nível em mais de três décadas entre as duas nações.

O novo ministro do Exterior do Irã, Mohammad Javad Zarif, que acompanhou Rohani a Nova York, revelou esta semana em sua página no Facebook que internou-se por um curto período num hospital por causa de dores nas costas e espasmos musculares, problemas de saúde que estariam ligados aos ataques contra ele na imprensa iraniana após sua viagem a Nova York. Zarif, que estudou nos Estados Unidos, engajou-se na defesa de uma tentativa de reaproximação da liderança iraniana com o Ocidente e de um abrandamento das sanções devastadoras para a economia da República Islâmica.

* Ramin Mostaghim e Patrick J. McDonnell são jornalistas do Los Angeles Times

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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