Carlos Barria/REUTERS
Carlos Barria/REUTERS

Discurso de Trump é interrompido e boicotado por deputados de minorias

Durante evento para comemorar a instauração da democracia representativa dos EUA, em cidade que foi reduto da escravidão no século XIX, declarações recentes consideradas racistas e xenófobas do presidente foram lembradas

Redação, O Estado de S.Paulo

30 de julho de 2019 | 16h14

JAMESTOWN, VIRGÍNIA - O discurso do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em evento para comemorar o aniversário de 400 anos de democracia representativa no país nesta terça-feira, 30, foi interrompido e boicotado por deputados estaduais que representam minorias, em especial imigrantes e negros, em meio a acusações de racismo contra o presidente.

Trump buscou celebrar a criação, em 1619, da primeira assembleia legislativa em Jamestown, que foi instalada para governar a incipiente colônia inglesa, precursora da democracia americana.

A cerimônia foi ofuscada pelo ambiente político tensionado pelos recentes ataques de Trump.

Jamestown não foi apenas o lar de alguns dos primeiros colonos europeus nos Estados Unidos, mas também dos primeiros escravos africanos. Isso transformou o lugar em um símbolo da história americana como um refúgio para os imigrantes, e até 1865, um local de escravidão em massa.

“Recordamos todas as almas sagradas que sofreram os horrores da escravidão”, disse Trump, que definiu o momento histórico como um “bárbaro comércio de vidas humanas”.

O presidente também enfatizou que foi necessária uma guerra civil para por fim à escravidão, em 1865, e mais um século para que o movimento dos direitos civis acabasse com as políticas abertamente racistas aos afro-americanos.

Em uma interrupção atípica de um discurso presidencial, um deputado do estado da Virgínia levantou um cartaz que dizia “Deportem o ódio” e “Volte ao seu lar corrupto”.

Trump interrompeu seu discurso enquanto o membro da Assembleia Estadual, identificado como Ibraheem Samirah, foi retirado do local.

Acusado de racismo

O presidente se encontra no olho do furacão por suas declarações consideradas insultantes e racistas em relação aos cidadãos afro-americanos e a minorias étnicas. Na cerimônia realizada em Jamestown, na Virgínia, local do primeiro assentamento permanente de ingleses no país, ele não parecia, porém, ter pressa para acalmar os ânimos.

"Sou a pessoa menos racista do mundo", disse Trump à imprensa ao deixar a Casa Branca, devolvendo a acusação para um de seus principais críticos, o proeminente ativista pelos direitos civis e pastor Al Sharpton.

Os congressistas afro-americanos da Virgínia disseram que boicotariam a celebração, porque foi "manchada" por Trump, considerando-a um ato de racismo por parte do republicano.

"É impossível ignorar o emblema do ódio e o desdém que o presidente representa", disseram os legisladores em um comunicado, acusando Trump de usar uma "retórica racista e xenófoba".

Nesta terça, Trump negou que a polêmica racial, a qual rompe todas as normas da política tradicional de Washington, tenha prejudicado sua imagem."Os afro-americanos estão ligando para a Casa Branca. Nunca se sentiram tão felizes com o que nosso presidente fez", afirmou, falando de si mesmo.

Pesquisas de opinião recentes mostram, contudo, que o apoio de Trump entre os eleitores negros em todo o país é particularmente baixo.

Nas últimas duas semanas, o presidente investiu contra quatro congressistas democratas representantes de minorias, contra um respeitado legislador democrata negro de Baltimore e contra Sharpton. Foi acusado de aprofundar, deliberadamente, as divisões raciais para atender à sua base de eleitores brancos da classe trabalhadora de olho na reeleição de 2020.

Trump se mostrou especialmente duro contra Baltimore, uma cidade portuária situada perto de Washington. Com população de maioria negra, a localidade é há muitos anos dominada pelos democratas.

No fim de semana, o presidente descreveu Baltimore como “um desastre infestado de ratos e roedores” não apta para seres humanos, e responsabilizou o congressista democrata Elijah Cummings por isso. Cummings é um dos principais representantes da cidade no Congresso.

Em seguida, Trump atacou Sharpton, que saiu em defesa de Baltimore, escrevendo no Twitter que o pastor é um “golpista” que “odeia os brancos e os policiais”. / AFP

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