Discurso divisor de águas

Abbas, que não tem nada a perder, deve pedir hoje à ONU a criação do Estado palestino

WILLIAM, BOOTH, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2014 | 02h01

O envelhecido e isolado presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, falará hoje à Assembleia-Geral da ONU. Esse poderá ser o discurso capital de sua carreira - e um sinal do que está por vir. Segundo fontes, Abbas apelará para o organismo mundial "internacionalizar" o conflito israelense-palestino, apoiar o fim da ocupação israelense e a criação de um Estado palestino soberano, com as fronteiras anteriores a 1967 e com Jerusalém Oriental como sua capital.

Eis como alguns diplomatas e acadêmicos israelenses, palestinos e americanos imaginam cenários possíveis: Abbas não tem nada a perder. Tem 79 anos, seu mandato terminou oficialmente há cinco anos e ele se queixou de que está doente e cansado.

Depois da guerra de 50 dias em Gaza, que deixou 2.100 palestinos mortos, o Hamas é mais popular do que nunca. Abbas, que prometeu não violência, mas vem sendo esnobado por Israel, é notícia velha. Pesquisas sugerem que ele perderia se a eleição fosse hoje.

Abbas é sério? Após seu discurso, Abbas e os palestinos, que receberam "status de Estado observador" na ONU em 2012, muito provavelmente apresentarão uma resolução vinculante ao Conselho de Segurança da ONU para pôr fim à ocupação israelense - num prazo de três anos. Na semana passada, o presidente francês, François Hollande, indicou que apoiará uma resolução com esse teor.

O que o presidente Barack Obama fará? Os EUA provavelmente vetarão a resolução. Obama pode concordar com os objetivos gerais das demandas palestinas (fronteiras de 1967 com trocas de terras, algum tipo de "capital" em Jerusalém ou em torno dela), mas com base em antigos princípios, rejeitará a resolução, alegando que Abbas jamais aprovará um Estado palestino por intermédio da ONU, somente por negociações diretas com Israel.

Em busca de "cidadania". Rejeitado pelos americanos e incitado por consultores impacientes como o ex-negociador Saeb Erekat, Abbas anuncia que a Palestina se integrará a novos tratados, convenções e organismos da ONU. Em abril, os palestinos assinaram 15 protocolos da ONU sobre direitos sociais e humanos.

Os palestinos aumentam as apostas. Uma lei de 1990 proíbe os EUA de financiarem organismos da ONU que reconheçam um Estado palestino. Os EUA perderam seu direito de votar no organismo para cultura e educação da ONU, Unesco, depois do ingresso dos palestinos, há três anos. Se os palestinos decidirem entrar na Organização Mundial de Saúde, os EUA serão obrigados a retirar seu apoio (em meio a uma epidemia de Ebola). Se os palestinos entrarem na Agência Internacional de Energia Atômica, o mesmo ocorreria (no meio de negociações com o Irã).

Alguns diplomatas acreditam que, em represália, os israelenses anunciariam construções na área da Cisjordânia, criando uma barreira a um Estado palestino contíguo. O Congresso americano, furioso com os palestinos por seu ingresso na OMS e na AIEA, retiraria a ajuda financeira de que a Autoridade Palestina necessita para sobreviver.

Os palestinos buscam participação no Tribunal Penal Internacional (TPI) em Haia e pressionam para que líderes políticos e militares israelenses sejam acusados de crimes de guerra pela ocupação da Cisjordânia e as mortes de civis em Gaza. Os israelense respondem com as próprias acusações de crimes de guerra no TPI contra o Hamas e a Autoridade Palestina, por disparos indiscriminados de foguetes.

Os israelenses acham que esta ameaça de crimes de guerra não levará os palestinos a nenhuma parte. "Não se pode levar Israel ao TPI e depois dizer que se quer negociar um Estado com os israelenses", disse Alan Baker, ex-embaixador israelense no Canadá.

O fim das contas? Com poucas cartas sobrando para jogar, Abbas desmonta a Autoridade Palestina na Cisjordânia (e Gaza) e entrega as chaves do governo aos israelenses, que seriam então responsáveis pela saúde, o bem-estar e a segurança nos territórios palestinos. O que ocorreria, então, seria num futuro demasiado longínquo para a imaginação dos diplomatas. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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