Discurso evidencia 'guerra' por classe média

Obama faz promessas vagas para criar empregos; oposição pede menos impostos

JIM TANKERSLEY, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

14 de fevereiro de 2013 | 02h05

Há dois tipos de americanos de classe média que hoje enfrentam problemas financeiros. De um lado, os que não conseguem achar trabalho ou não trabalham o número de horas que gostariam. E, do outro, os que trabalham em tempo integral, mas não conseguem progredir.

No seu discurso sobre o Estado da União, na terça-feira, e em suas propostas, o presidente Barack Obama não apresentou grandes soluções para os dois grupos - pelo menos no que se refere ao principal problema destes cidadãos. Em ambos os discursos, ele falou da necessidade de um maior crescimento econômico. Houve uma época em que o crescimento era suficiente, mas não hoje.

Nas três últimas recuperações depois das respectivas recessões, o crescimento dos EUA não chegou nem perto dos ganhos em número de emprego e de renda de que gerações anteriores de trabalhadores desfrutaram. Os ricos continuaram em excelente situação.

Hoje, entretanto, um ponto de aumento do crescimento representa menos empregos na economia como um todo e menos dinheiro nos bolsos das famílias de classe média em comparação ao mesmo ponto de crescimento nos 40 anos após a 2.ª Guerra.

Esta erosão entre o crescimento e a prosperidade dos americanos médios continua atormentando os economistas, e muitos parlamentares ainda não admitem o problema. Mas restaurar esta correlação é evidentemente o desafio fundamental da política americana para o governante que pretenda melhorar as condições da classe média.

Obama referiu-se a esta corrosão em seu discurso sobre o Estado da União. "Todos os dias, nós, enquanto nação, deveríamos nos fazer três perguntas: De que maneira podemos atrair mais empregos para nosso país? De que maneira preparamos nosso povo com as competências indispensáveis para ocupar estes empregos? E de que maneira podemos garantir que o trabalho duro levará a uma vida decente?"

Mas, além de alguma ajuda específica para os empregos na indústria e alguns investimentos na formação de pessoal especializado, as propostas de Obama trataram comparativamente pouco da melhoria da relação entre crescimento e empregos, ou crescimento e renda. Os planos mais audaciosos de Obama previram o aumento do salário mínimo e a garantia de que cada criança possa frequentar a pré-escola. Ambos, em grande parte, buscam incentivar os americanos pobres e ajudar os seus filhos a obter melhores oportunidades de acesso a empregos mais bem remunerados.

Ao que parece, a resposta republicana ao discurso de Obama não concordou absolutamente com a nova realidade. O presidente do Senado, Marco Rubio, declarou que "o crescimento econômico é a melhor maneira de ajudar a classe média" e apresentou algumas propostas de criação de emprego diferentes das que os políticos republicanos defendem desde os anos 80.

É doloroso constatar que a recuperação no governo Obama apresentou taxas de crescimento menores do que qualquer recuperação sustentada desde a Grande Depressão. Mas esta é apenas uma parte do problema. O crescimento que ocorreu nem sequer chegou perto de um patamar historicamente "normal" de criação de empregos ou de aumento da renda.

Quase quatro anos depois do fim da Grande Recessão, 12 milhões de americanos procuram incansavelmente trabalho, mas não encontram emprego; outros 11 milhões trabalham meio período quando gostariam de fazê-lo em tempo integral, ou gostariam de trabalhar, mas sentem-se demasiado desestimulados a buscar emprego. Enquanto isso, no final de 2012, os salários médios dos trabalhadores eram menores, descontada a inflação, aos do fim de 2003. Em 2011, a renda real dos domicílios era menor do que em 1989. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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