Discurso kirchnerista traz ecos dos tempos do regime militar

Artigo

Ricardo Irshbaum, O Estado de S.Paulo

21 de outubro de 2010 | 00h00

gora já sabemos quem é a musa inspiradora do ministro da Economia da Argentina, Amado Boudou, para ele dizer, como ocorria nos tempos funestos da ditadura, que existe dentro do país uma campanha "anti-Argentina". É bom lembrar: os militares acusavam todos aqueles que os denunciavam de participar de uma campanha contra a Argentina. Boudou, talvez por reflexo da época em que sua ala política defendia a ditadura, ressuscitou o termo, qualificando como "antiargentinos" jornalistas do Clarín e La Nación, que acusou de ser iguais aos trabalhadores escravos judeus nos campos de concentração.

Em Mercedes, na Província de Buenos Aires, a presidente Cristina Kirchner afirmou que seria bom "nacionalizar" os meios de comunicação. Ela esclareceu que não estava propondo estatizar a imprensa, mas que a mídia adotasse uma outra posição em relação aos feitos de seu governo.

A presidente disse também que a mídia não tem "consciência nacional" e por isso não defende "os interesses do país". Não se referiu aos meios de comunicação com capital estrangeiro, declaradamente oficialistas, que operam no país.

Fica cada vez mais claro o que o kirchnerismo pensa da liberdade de expressão e de crítica. Poucos dias depois de assinar a consolidação de um gigantesco monopólio da telefonia, nas mãos de uma companhia estrangeira, o governo inflama-se de patriotismo, com acusações partindo de uma fonte cada vez mais autoritária.

Uma segunda contradição do governo é apresentar como medida democrática o que na realidade não é. Assim, ele dissimula decisões que afetam a liberdade de escolha dos leitores.

Sabemos o que significa "nacionalização" para o governo do casal Kirchner: ausência de crítica e submissão.

É EDITOR-GERAL DO "CLARÍN"

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