Sarah Silbiger / The New York Times
Sarah Silbiger / The New York Times

Discurso sobre o Estado da União é o mais importante de Trump. Quem o escreve?

Discurso anual é um acontecimento peculiar na era Trump porque é, normalmente, a única vez no ano em que o presidente consente em manter o protocolo

Katie Rogers / The New York Times, O Estado de S.Paulo

04 de fevereiro de 2020 | 20h00

WASHINGTON - Há duas categorias de redator de discursos em Washington, mas somente um consegue sobreviver na Casa Branca ocupada por Donald Trump. A primeira - da qual existem muitos exemplos em ambos os partidos - é definida pelos que usam a função de redator de discursos presidencial como trampolim para uma futura carreira lucrativa, como a de comentarista político, e parecem seguir nessa direção desde o momento em que chegam à Casa Branca. 

A segunda categoria é personificada por assessores pouco conhecidos, como Vince Haley e Ross Worthington, redatores de discursos que redigiram o discurso sobre o Estado da União que Trump profere nesta noite de terça-feira com o tema “O Grande Retorno Americano”, e darão todo o crédito ao presidente. 

O discurso anual é um acontecimento peculiar na era Trump porque é, normalmente, a única vez no ano em que Trump consente em manter o protocolo presidencial, o que é celebrado. Trump acredita que ele é o seu melhor comunicador de modo que, no seu governo, o trabalho do redator de discursos não é tão proeminente no estilo de um “Hemingway”, como à época do seu predecessor, Barack Obama, que aliás deu esse apelido a um dos seus redatores, Cody Keenan. O trabalho pertence ao presidente.

O presidente é um autor que sabe se vender e um hábil orador que lota estádios e tem um método meticuloso e cuidadosamente aperfeiçoado para escrever seus discursos”, disse Hogan Gidley, porta-voz da Casa Branca, “seja num comício, na inauguração de uma fábrica ou no caso do Estado da União, o que o povo americano ouvir é 100% escrito pelo presidente Trump”.

Assim, na Casa Branca atual, escrever o discurso é uma tarefa melhor feita anonimamente, e tanto Haley como Worthington sabem disso. “Eles têm um profundo sentimento de que, quanto mais anônimos forem, melhor para eles”, afirmou Newt Gingrich, antigo presidente da Câmara e ex-chefe dos dois.

Haley, 53 anos, e Worthington, 31 anos, têm trabalhado sob a chefia de Stephen Miller, assessor do presidente desde os primeiros dias de governo de Donald Trump, procurando adicionar um contexto histórico aos discursos anuais de Trump e canalizar ideias de todo o governo num texto coeso.

Há anos os membros do governo descartam pedidos de jornalistas para descreverem o processo de redação dos discursos, mas de acordo com entrevistas feitas com alguns funcionários antigos e atuais é um processo que mais ou menos se baseia na tradição.

Há alguns meses circulou um e-mail na Casa Branca, como já ocorreu em governos passados, em que foi solicitado a todos os funcionários, desde os assessores políticos e chefes de gabinete, para apresentarem por escrito uma descrição das suas realizações mais importantes e tópicos a serem revistos. Do seu posto no Eisenhower Executive Office Building, Haley e Worthington reuniram as sugestões com aportes de outros assessores. Algumas das reuniões de planejamento deste ano chegaram a contar com 70 pessoas ou mais.

Por meses, Trump também fez circular pequenos pedaços de papel rascunhados com frases ou temas que gostaria de incluir no discurso e que foram transmitidos para seus redatores. Haley, formado no College of William & Mary, passou grande parte da sua carreira numa empresa de produção controlada por Gingrich e sua mulher, Callista, e foi coordenador de campanha de Gingrich quando foi candidato presidencial em 2012.

No passado, ele procurou encaixar os discursos de Trump num contexto mais amplo da história americana: sua sugestão para o primeiro discurso de Trump ao Congresso, quando da sua posse, de abordar no pronunciamento o aniversário da assinatura da Declaração de Independência, foi muito elogiada pelo presidente.

Worthington foi coautor de Gingrich, tendo escrito com ele um livro lançado em 2013 intitulado Breakout: Pioneers of the Future, Prison Guards of the Past and the Epic Battle That Will Decide America’s Fate.

Worthington, nos seus próprios artigos, parece estar em sintonia com as inclinações populistas de Trump e sua aversão pelas instituições de elite. Em um editorial que escreveu para o website conservador The Federalist, ele denegriu o liberalismo nas universidades.

“Como ficou provado no caso de ideias que a polícia de privilégios não aprecia, nós não podemos nunca controlar nossos privilégios o suficiente. Nunca expressaremos as ideias de uma maneira que não mais mereçam apelos ad hominem à nossa raça, gênero ou situação econômica. Nem mesmo tentaremos”.

Haley e Worthington não comentaram a respeito do seu trabalho, como também a Casa Branca não os autorizou, declarando que outros assessores - como  Brittany Baldwin, ex-redator de discursos do senador Ted Cruz, William Gribbin, redator na Heritage Foundation, e Theodore Royer, que redigiu os discursos de Rick Perry - colaboraram na redação do documento. 


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O discurso deste ano, que será proferido quando o processo de impeachment de Trump chega na sua reta final, será a mais recente e possivelmente a última tentativa dos dois de elaborarem um alocução que seja uma espécie de “quebra-molas” no caso de um presidente que não é conhecido por apelar ao bipartidarismo que normalmente os discursos sobre o Estado da União contemplam.

Um funcionário do alto escalão do governo disse a jornalistas na sexta-feira que o discurso vai se concentrar bastante no acesso ao sistema de saúde, o custo dos remédios, a política de imigração, o chamado “boom” do operariado e a segurança nacional.

Ben Domenech, editor do The Federalist, disse que Haley e Worthington são especialmente bons para redigir a “versão presidencial” de Trump, mesmo num prazo muito curto. Segundo ele “são pessoas simpáticas e descontraídas” com uma “frequência cardíaca baixa”, mesmo que o clima dentro da Casa Branca seja acelerado.

“Trump está sempre pisando no acelerador: vamos a 130 quilômetros por hora”, disse Domenech. “Mas quando Trump fala, é notório que não existe nenhuma outra voz ali, e essa é a sua força. Por isto acho que ele deveria ter mais crédito”, acrescentou. Isto, contudo, é improvável. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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