REUTERS/Beck Diefenbach
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Disney, Facebook, Google, Walmart e outras empresas obrigam trabalhadores nos EUA a se vacinar

Especialistas em saúde pública alertam que obrigatoriedade limitada pode reforçar a divisão entre os trabalhadores de alta e baixa remuneração do país, sem aumentar as taxas de vacinação

Lauren Hirsch/ The New York Times, O Estado de S.Paulo

04 de agosto de 2021 | 10h00

Alguns dos maiores empregadores dos Estados Unidos, que por meses estiveram relutantes em entrar na difícil questão da obrigatoriedade das vacinações contra a covid-19, nos últimos dias foram obrigados a agir com a disparada de novas infecções provocadas pela variane Delta, mais contagiosa.

Grandes empregadores como Disney, Facebook, Google e Walmart adotaram requerimentos mais severos de vacinação para autorizar o retorno de empregados aos seus locais de trabalho.

Na terça-feira, a Tyson Foods disse a seus 120.000 funcionários em escritórios, matadouros e fábricas de aves em todo o país que eles precisariam ser vacinados até 1º de novembro como uma “condição de emprego”. E a Microsoft, que emprega cerca de 100.000 pessoas nos Estados Unidos, disse que exigirá prova de vacinação para todos os funcionários, fornecedores e convidados para ter acesso aos seus escritórios.

Na semana passada, o Google disse que exigiria que os funcionários que retornassem aos escritórios da empresa fossem vacinados, enquanto a Disney anunciou aa obrigatoriedade para todos os trabalhadores assalariados por hora e não sindicalizados que trabalham no local.

Outras empresas, incluindo Walmart, o maior empregador privado dos Estados Unidos, e Lyft e Uber, adotaram uma abordagem menos enérgica, exigindo vacinas para trabalhadores de áreas administrativas e em cargos gerenciais, mas não para milhões de trabalhadores da linha de frente. Essas mudanças basicamente criaram uma divisão entre os funcionários que trabalham em escritórios e os funcionários que lidam diretamente com o público e, coletivamente, têm sido mais relutantes em receber as doses.

Até agora, com a exceção do setor de saúde, a obrigatoriedade de vacinação no trabalho tendia a abranger apenas o pessoal de colarinho branco que os executivos desejam ver de volta ao escritório, e não os trabalhadores de remuneração mais baixa que estão na linha de frente e cuja probabilidade de vacinação é inferior.

“Não tomamos essa decisão levianamente”, escreveu o executivo-chefe da Tyson, Donnie King, em um memorando aos funcionários anunciando a obrigatoriedade da vacina na empresa. “Passamos meses incentivando os membros da nossa equipe a se vacinarem - hoje, menos da metade dos membros da nossa equipe o fez.”

“Quero agradecer ao Walmart, Google, Netflix, Disney, Tyson Foods por suas ações recentes exigindo a vacinação dos funcionários”, disse o presidente Joe Biden em uma coletiva de imprensa na terça-feira. "Olha, eu sei que não é fácil, mas vou protegê-los". “Outros se recusaram a avançar”, disse ele. "Acho decepcionante."

Na verdade, a maioria dos outros grandes empregadores até agora evitou a obrigatoriedade total. A Amazon, o segundo maior empregador privado do país, não anunciou nenhum plano para exigir imunizações, nem a Apple ou muitos dos maiores bancos.

“Estamos trabalhando fortemente para que nossos funcionários sejam vacinados”, disse o diretor financeiro da Amazon, Brian Olsavsky, em uma ligação com repórteres na semana passada, “e esperamos que todos sejam vacinados e isso desapareça”.

O coronavírus, no entanto, não mostra sinais de ir embora. Com as taxas de vacinação estagnadas em muitas partes do país e a variante Delta aumentando, uma nova onda de infecções está forçando as empresas a agirem.

“A ascensão da variante Delta está na mente das pessoas”, disse Douglas Brayley, advogado trabalhista da Ropes & Gray. “Eu acho que eles estão olhando em volta e vendo um número maior de empregadores começando a obrigar a vacinação, então eles estão se perguntando se deveriam reconsiderar também.”

Mas a hesitação vacinal continua sendo uma questão arraigada e com grande carga emocional em muitos locais de trabalho americanos.

Muitas empresas, que já enfrentam falta de pessoal, temem que a exigência de vacinas possa dar aos funcionários outro motivo para pedir demissão. Ao mesmo tempo, as empresas estão lutando por novas maneiras de incentivar os trabalhadores a serem vacinados, depois que esforços como o oferecimento de bônus em dinheiro não aumentaram as taxas de imunização com rapidez suficiente.

Grande parte da hesitação remanescente em relação às vacinas parece estar enraizada em uma complexa mistura de política, crenças culturais e desinformação que nenhum pagamento em dinheiro ou vale-presente de um empregador pode superar.

“Muitos trabalhadores estão recusando a vacina por motivos políticos e ideológicos”, disse Stuart Appelbaum, presidente do Sindicato do Varejo, Atacado e Loja de Departamento, que representa os trabalhadores de fábricas de alimentos no Centro-Oeste, onde as taxas de vacinação são baixas. “Nos lugares onde temos o maior número de apoiadores de Trump, vemos um grande número de resistentes à vacina”.

Mas muitos sindicatos desconfiam da obrigatoriedade da vacina por um conjunto diferente de razões que não são principalmente políticas. Eles dizem que muitos de seus membros estão preocupados com os potenciais efeitos colaterais para a saúde ou se arrepiam com a ideia de um empregador interferir no que eles consideram uma decisão pessoal de saúde.

Marc Perrone, presidente do sindicato United Food and Commercial Workers, que representa 1,3 milhão de funcionários em cadeias de supermercados como a Kroger e em grandes frigoríficos, disse que não apoiaria a obrigatoriedade dos empregadores até que a Food and Drug Administration desse total aprovação à vacina, que está sendo administrada em caráter de emergência.

“Você não pode simplesmente dizer: ‘Aceite a obrigatoriedade ou caia fora’”, disse Perrone em uma entrevista na segunda-feira.

Depois que a Tyson anunciou a obrigatoriedade da vacina na terça-feira, Perrone emitiu uma declaração de que o sindicato “se reunirá com a Tyson nas próximas semanas para discutir este mandato de vacina e para garantir que os direitos desses trabalhadores sejam protegidos e esta política seja implementada de forma justa.”

Questionado se apoiava os mandatos de vacinas, Appelbaum disse: “Não estou preparado para responder a isso ainda”. Mas ele disse que as empresas precisavam negociar de perto os termos de tais requisitos com os trabalhadores e que também precisavam expandir os benefícios, como licenças pagas por doença, para os trabalhadores durante a pandemia.

Juntos, os sindicatos de Perrone e Appelbaum representam mais de 30.000 trabalhadores nas fábricas da Tyson, o que complica os planos da empresa de carnes.

Tyson e outros na indústria de empacotamento de carne foram criticados durante os estágios iniciais da pandemia por não fazerem o suficiente para proteger os trabalhadores, uma vez que várias fábricas de carne se tornaram focos de vírus.

Agora, está exigindo que sua equipe de liderança seja vacinada até 24 de setembro e o restante de seus funcionários até 1º de outubro. Os funcionários da linha de frente têm até 1º de novembro para serem totalmente vacinados, tempo extra que a empresa está fornecendo porque há “significativamente mais membros da equipe da linha de frente do que funcionários de escritório que ainda precisam ser vacinados”, disse um porta-voz da Tyson.

Durante a pandemia, as empresas agiram com cautela ao implementar medidas de saúde pública, ao mesmo tempo em que tentavam evitar danos aos seus negócios.

No ano passado, quando grandes varejistas começaram a exigir que os clientes usassem máscaras, eles discretamente disseram a seus funcionários que não aplicassem a regra se um cliente fosse inflexível sobre não usar uma.

Empresas como o Walmart tentaram uma abordagem experimental semelhante com os requisitos de vacinas.

O Walmart anunciou na semana passada que estava exigindo que cerca de 17.000 trabalhadores em sua sede em Arkansas fossem vacinados, mas não aqueles em lojas e centros de distribuição, que constituem a maior parte de seus 1,6 milhão de funcionários nos EUA.

Em um comunicado, o varejista disse que o mandato limitado enviaria uma mensagem a todos os trabalhadores de que eles deveriam ser vacinados.

“Estamos pedindo aos nossos líderes, que já têm uma taxa de vacinação mais alta, que deixem seu exemplo claro”, disse a empresa. “Esperamos que isso influencie ainda mais nossos associados da linha de frente a se tornarem vacinados.”

Uber e Lyft disseram a seus funcionários corporativos na semana passada que precisariam mostrar uma prova de que haviam sido vacinados antes de retornar aos escritórios da empresa.

Exigir vacinas “é a maneira mais eficaz de criar um ambiente seguro e dar aos membros da nossa equipe paz de espírito ao retornarmos ao escritório”, disse Ashley Adams, porta-voz da Lyft.

Mas esses mandatos não se estendiam aos trabalhadores com os quais as empresas contratam para conduzir milhões de clientes de e para seus destinos. Os motoristas estão sendo incentivados a se vacinar, mas nem Lyft nem o Uber têm planos de exigi-los.

Especialistas em saúde pública alertam que mandatos limitados podem reforçar a divisão entre os trabalhadores de alta e baixa remuneração do país, sem promover a meta de saúde pública de aumentar substancialmente as taxas de vacinação.

Eles também dizem que é ingênuo pensar que os trabalhadores que resistiram às vacinas por razões ideológicas mudariam repentinamente de ideia depois de ver os executivos mais bem pagos de uma empresa receberem as injeções.

“Em última análise, queremos garantir que eles realmente tenham o mais amplo alcance”, disse Kirsten Bibbins-Domingo, vice-reitora de saúde da população e equidade na saúde da Universidade da Califórnia, em San Francisco, sobre as diretrizes das empresas. “Não fazer isso, eu acho, só fará com que os outros suspeitem mais desses tipos de mandatos.”

Legalmente, as empresas podem exigir a vacinação. No ano passado, a Comissão de Oportunidades Iguais de Emprego disse que os empregadores poderiam exigir imunização, embora as empresas que o fazem ainda possam enfrentar processos judiciais.

George W. Ingham, sócio do escritório de advocacia Hogan Lovells, disse que empresas com mandatos teriam que tomar decisões difíceis.

“Eles terão que demitir pessoas de alto e baixo desempenho que recusam vacinas”, disse ele. “Eles têm que ser consistentes.” Os motivos pelos quais um funcionário pode ser isento incluem crenças religiosas ou deficiência, embora o processo de separá-los individualmente deva ser árduo.

As empresas também podem ter que lidar com a resistência dos governos estaduais. Dez Estados aprovaram legislação que limita a capacidade de exigir vacinas para estudantes, funcionários ou o público, de acordo com a Conferência Nacional de Legislaturas Estaduais.

A Disney está entre as poucas grandes empresas que buscam um amplo mandato de vacinação para sua força de trabalho, mesmo em face da resistência de alguns funcionários.

Além de exigir vacinas para trabalhadores não sindicalizados, a Disney disse que todos os novos contratados - sindicalizados e não sindicalizados - deverão ser totalmente vacinados antes de começarem seus empregos. Trabalhadores por hora não sindicalizados incluem a equipe de relações com os hóspedes do parque temático, fotógrafos do parque, assistentes executivos e alguns funcionários do parque temático sazonal.

Foi o máximo que a Disney conseguiu fazer sem uma aprovação dos doze sindicatos que representam a maior parte de seus funcionários. O Walt Disney World na Flórida, por exemplo, tem mais de 65.000 trabalhadores; cerca de 38.000 são membros do sindicato.

A Disney agora está buscando a aprovação do sindicato para o mandato na Flórida e na Califórnia, onde dezenas de milhares de trabalhadores do Disneyland Resort em Anaheim são sindicalizados. A maioria dos líderes dos sindicatos da Disney parece ser a favor da obrigatoriedade - desde que as acomodações possam ser acertadas para aqueles que recusam a vacina por razões médicas, religiosas ou outras razões aceitáveis.

“As vacinas são seguras e eficazes e a melhor linha de defesa para proteger os trabalhadores, na linha de frente ou de outra forma”, disse Eric Clinton, presidente da UNITE HERE Local 362, que representa 8.000 funcionários e zeladores da Disney World, em uma entrevista por telefone.

Clinton se recusou a comentar sobre qualquer resistência entre os afiliados ao seu sindicato, mas outro líder sindical da Disney World, falando em anonimato, disse que "um bom número" de seus membros estava em pé de guerra contra o mandato da Disney, citando escolha pessoal e medo da vacina.

“A empresa provavelmente fez um cálculo e decidiu que algumas pessoas infelizmente vão desistir em vez de se proteger, e que assim seja”, disse.

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