Inquam Photos/Sabin Cirstoveanu via REUTERS
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Disparidade da vacinação na fronteira entre Romênia e Moldávia é retrato da crise na Europa

Parte da União Europeia, Romênia já recebeu 4 milhões de doses de vacina para uma população de 19 milhões, enquanto a ex-república soviética só recebeu 72 mil doses

Redação, O Estado de S.Paulo

31 de março de 2021 | 15h00

A oeste, entregas regulares de vacinas; a leste, a conta-gotas. No meio, a fronteira da União Europeia (UE) que separa a Romênia da Moldávia, o que pode significar a diferença entre a vida e a morte em meio à pandemia do novo coronavírus.

A Romênia, que ingressou no bloco europeu em 2007, tem se beneficiado consideravelmente dos fundos da UE e é um dos poucos membros do clube que não criticou a estratégia de Bruxelas em relação à compra conjunta de vacinas.

As negociações entre a Comissão e os fabricantes evitaram um "caos", que "teria favorecido o licitante mais alto", elogiou recentemente o primeiro-ministro Florin Citu.

Esta posição conciliatória "faz parte de uma política mais ampla de Bucareste que, apoiada por uma população pró-europeia, não quer enfrentar Bruxelas", ao contrário de outros países do leste, destaca o analista Sorin Ionita, do Expert Forum.

Em todo o caso, a estratégia do Executivo europeu beneficiou os romenos, satisfeitos por terem recebido 4 milhões de doses, das quais já inocularam quase 3 milhões, numa população de 19 milhões de habitantes.

Se a Romênia, um dos países mais pobres entre os 27, "não integrasse a UE, certamente teria tido muito mais dificuldade para obter vacinas", ressalta Ionita.

'A única possibilidade'

Em contrapartida, a Moldávia, que fez parte da Romênia por muito tempo, antes de se tornar uma república da extinta União Soviética (até 1991), deve lutar por conta própria para obtê-las.

Este país, com 3,5 milhões de habitantes, recebeu até agora 72.000 doses de Bucareste e outras 38.000 pelo mecanismo Covax, que favorece os países pobres.

Mas, nesta grande emergência "a vacina representa a única possibilidade" de superá-la, confidencia à AFP o diretor do hospital de Leova (oeste), Andrei Malasevschi.

O sistema de saúde da Moldávia está enfraquecido pelo êxodo de pessoal médico para países mais ricos e agora sofre com o peso da pandemia.

Com mais de 4.800 óbitos registrados até o momento, o país tem uma das taxas de mortalidade mais elevadas da Europa.

"Desde o início da pandemia, não tivemos trégua", lamenta o médico.

"A situação está praticamente fora de controle, às vezes não há leitos disponíveis e os pacientes têm que ser transferidos para hospitais provinciais", acrescenta Adrian Belii, médico da unidade de terapia intensiva do hospital da capital, Chisinau.

Se a Moldávia aderisse à UE, "como sonha grande parte de sua população, as coisas seriam diferentes", considera.

A vacinação só começou em março, dois meses após o início da campanha na Romênia, e as doses inoculadas até agora foram para profissionais da saúde.

"Estamos longe de imunizar os grupos de risco (idosos ou com doenças graves), sem falar na população em geral", lamenta Belii.

Rússia ao socorro?

O número de casos aumenta a cada dia. Por isso, a presidente pró-europeia, Maia Sandu, decidiu recorrer à Rússia para "obter rapidamente a Sputnik V", anúncio que provocou uma série de comentários nas redes sociais e na mídia.

O país sempre se dividiu entre uma reaproximação com a Rússia e a integração à UE, por isso a geopolítica participa da crise da saúde.

"Remédios e vacinas se tornaram questões políticas e alguns hospitais se recusam a usar a vacina europeia, preferindo esperar pela russa", diz Andrei Malasevschi, referindo-se aos hospitais de Gagauzia, uma região autônoma pró-Rússia (sul).

"A campanha de desinformação, muito bem organizada, destaca a ideia de certa periculosidade das vacinas ocidentais", protesta seu colega de Chisinau.

Essas teorias da conspiração encontraram eco em Jaroslav Lisna, um motorista de 61 anos de Bujor (centro): "Ouvi dizer que as vacinas não foram testadas", diz, e sussurra em tom confidencial: "Acho que este vírus é um complô global"./ AFP

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