Disparos impedem observadores da ONU de investigar massacre na Síria

Ameaça. Secretário-geral das Nações Unidas denuncia disparos contra monitores, que tentavam chegar à região da suposta matança, ocorrida na quarta-feira; Kofi Annan admite que plano de pacificação traçado por ele está à beira do fracasso definitivo

GUSTAVO CHACRA , CORRESPONDENTE / NOVA YORK, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2012 | 03h05

Observadores da ONU foram alvo de tiros ao tentar investigar a denúncia da oposição de um massacre nos arredores de Hama, na Síria, e não conseguiram chegar ao local, bloqueado por militares e milícias leais a Bashar Assad. Em Nova York, integrantes do Conselho de Segurança das Nações Unidas reuniram-se para discutir uma saída para a crise.

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, afirmou no plenário da Assembleia-Geral que os monitores foram alvo de armas de baixo calibre ao tentarem se aproximar da vila de Mazraat al-Qubeir, onde pelo menos 78 pessoas teriam sido mortas. Nenhum observador ficou ferido. Ele não indicou se forças do regime ou da oposição foram responsáveis pelos tiros.

Por seu lado, o ex-secretário-geral e mediador do conflito, Kofi Annan, alertou que a crise síria está a ponto de escapar do controle e disse que, se não houver mudanças e maior união da comunidade internacional, uma guerra civil é iminente. "A Síria não é a Líbia. Não vai implodir, mas explodir para além de suas fronteiras", disse. "Os responsáveis por esses crimes devem ser julgados. Não podemos permitir que as matanças sejam parte da realidade cotidiana da Síria."

Segundo o chefe da missão de observação das Nações Unidas na Síria, Robert Mood, militares sírios e integrantes de milícias pró-Assad - conhecidas como "shabiha" - impediram que os observadores se aproximassem da vila. A ação violaria o plano de pacificação traçado por Annan, com o qual Assad se comprometeu em abril. Eles tentariam retornar hoje ao local. Ativistas anti-Assad culpam o regime pelo novo massacre. Mazraat al-Qubeir é uma vila predominantemente sunita e associada aos opositores.

A ação ocorre dias depois do mais violento episódio do conflito até agora, quando 108 pessoas, incluindo 47 crianças, foram mortas. A ONU e governos dos EUA, da Europa e do mundo árabe culpam as forças do regime e as milícias pró-Assad pela matança de Hula.

O regime de Assad negou as acusações tanto do massacre de Hula como do de quarta-feira e pediu que China e Rússia - seus dois principais aliados externos - investiguem o que aconteceu.

Ban disse que "Assad perdeu a legitimidade em razão de 15 meses de repressão". "E elementos da oposição infelizmente pegaram em armas e declararam que não mais respeitarão o Plano Annan", acrescentou. "Ataques da oposição também não servem aos interesses do povo sírio, que está sangrando. Além disso, os recentes atentados demonstram a existência de um terceiro ator", afirmou Ban, em alusão à presença da Al-Qaeda - cujo líder, Ayman al-Zawahiri, declarou guerra a Assad.

Annan admitiu que seu plano "está fracassando". "É preciso ser honesto e reconhecer que o plano está sendo instrumentalizado", afirmou. "O país está mais polarizado e radicalizado. Os vizinhos estão cada vez mais preocupados", completou Annan.

No Conselho de Segurança, foi debatida possibilidade de criar um grupo de países mediadores que inclua Irã e Rússia. A França convocou uma reunião dos Amigos da Síria, mas não convidou Teerã. Diplomatas americanos e europeus buscam convencer Moscou a afastar-se de Assad. Numa nota oficial, a Casa Branca condenou a "ação atroz contra civis" em Hama e pediu a outros países que parem com o apoio a Assad e ajudem a impulsionar a "transição política".

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