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Disputa do século

Biden definiu rivalidade entre EUA e China como o confronto entre democracia e autocracia

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2021 | 03h00

O presidente Joe Biden definiu a rivalidade entre Estados Unidos e China como a disputa do século entre democracia e autocracia. . Essa visão se aplica não só às relações internacionais, mas também à dinâmica interna das democracias, a começar pela americana, ameaçadas por uma cultura supremacista em vários sentidos.

Na Guerra Fria, havia uma diferença não só entre os modelos democrático e autoritário, mas também entre sistemas econômicos baseados na livre iniciativa e no dirigismo estatal. As ineficiências inerentes à intervenção excessiva do Estado na economia levaram o bloco socialista à debacle econômica, militar e tecnológica. 

Em resposta, os chineses reorganizaram seus sistemas de ensino, pesquisa, comércio e indústria de modo a se inserir na globalização. Com sua mão de obra abundante e barata, regulação precária em matéria trabalhista e ambiental e um mercado interno crescente, a China se tornou o celeiro de manufatura do mundo. O regime de partido único continuou intacto e, com ele, o controle político da economia, da ciência e da cultura.

O deslocamento de grande parte da indústria para a China significou para muitos americanos e europeus sem ensino superior uma perda de renda e de status social. Esse grupo se tornou cliente de líderes populistas que manipulam seu ressentimento e nostalgia com a promessa da volta aos “velhos e bons tempos” por meio da exclusão de quem supostamente os “roubou”.

Esse discurso tem um núcleo supremacista, mais ou menos velado numa embalagem nacionalista, conservadora, religiosa e individualista. O veículo emocional dessa agenda política é a desconfiança da democracia, da liberdade econômica e do chamado “globalismo”. Isso gera uma incongruência interna, que confunde os liberais na economia e na cultura.

Cobri várias eleições presidenciais nos Estados Unidos, e encontrei um tipo de eleitor submerso em um dilema: de um lado, ele é moralmente conservador, o que o atrai para os candidatos republicanos; de outro, sente que precisa da ajuda do Estado, da regulação dos serviços e de outras preocupações típicas dos democratas. 

Não existia um candidato para esse eleitor, cujo voto representava uma escolha de Sofia. Até que Donald Trump conseguiu conciliar essas duas aspirações contraditórias, com um discurso moralmente conservador, porém protecionista, com uma forte identificação cultural com as pessoas de baixo nível de instrução, ao mesmo tempo que atende também às suas crenças individualistas e sonhos de ascensão social. O mesmo se pode dizer de Marine Le Pen na França e de tantos outros líderes da extrema direita.

O que move esse contingente de desiludidos e ressentidos é o “arrivismo” – o desejo de chegar a um patamar superior de prosperidade e status social e, ao chegar (“arriver”, em francês), simbolicamente chutar a escada, para impedir que outros de baixo também ascendam, e com isso anulem seus ganhos comparativos.

A desconfiança da democracia e das liberdades, combinada com a identificação com líderes considerados “fortes”, produziu uma admiração por autocratas como o russo Vladimir Putin. O chinês Xi Jinping poderia preencher esse papel também, se a China não fosse identificada como a raiz dos problemas dessa classe social – e se ele fosse caucasiano.

“Temos de provar que a democracia funciona”, exortou Biden, numa resposta à noção de que sistemas autoritários como o chinês produzem mais resultados. “No momento em que um presidente se afasta disso, como fez o último, perdemos nossa legitimidade ao redor do mundo.” 

O futuro da democracia depende da resposta a essa pergunta: a legitimidade do liberalismo econômico está na meritocracia, que pressupõe oportunidades não tão desiguais, ou na exclusão supremacista?

* É COLUNISTA DO ESTADÃO E ANALISTA DE ASSUNTOS INTERNACIONAIS

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