Disputa gera desabastecimento antes de referendo venezuelano

Produtos como açúcar e arroz somem das prateleiras de alguns supermercados de Caracas na véspera do pleito

Claudia Jardim, BBC

13 de fevereiro de 2009 | 22h48

Para os venezuelanos, a proximidade de um processo eleitoral passou a ser sinônimo de desabastecimento dos principais produtos da cesta básica. Às vésperas do referendo do próximo domingo - em que os venezuelanos decidirão se aprovam ou não o fim do limite à reeleição -, arroz, feijão, açúcar e papel higiênico são produtos que desapareceram das prateleiras dos supermercados de Caracas.   Veja também: A dinastia Chávez  Conheça os programas sociais apoiados por Hugo Chávez Veja os possíveis cenários criados pelo referendo de Chávez Processos eleitorais na Venezuela na presidência de Chávez Não é a primeira vez que isso ocorre. Nas eleições regionais do ano passado, os produtos em escassez eram açúcar e café. No referendo de 2007, quando os venezuelanos disseram não à uma ampla reforma constitucional, houve uma aguda crise de desabastecimento de leite. Dois dias depois do pleito, o produto reapareceu nas prateleiras, em grandes quantidades. Wilmer Florian, chefe de compras de um supermercado em Altamira, bairro de classe-média alta da capital, disse que há uma semana os fornecedores deixaram de entregar os principais produtos da cesta básica. "Nas semanas anteriores, chegava um pouco e logo acabava, mas, nesta semana, não veio nada mesmo, principalmente papel higiênico e arroz", afirmou Florian à BBC Brasil. O funcionário disse que os fornecedores alegam que a escassez ocorre devido à falta de matéria-prima para a industrialização. Mas, em sua opinião, o problema é de natureza política. "O governo tem controlado mais os empresários, obrigando a regulação dos preços, coisas que não existiam antes. E eles respondem assim para pressionar o governo, para que os consumidores sintam essa sensação de caos", afirmou. Todos os grandes supermercados da capital - cujas redes de abastecimento não passam pelo controle do governo - enfrentam o mesmo problema. O presidente da Confederação de Industriais, Eduardo Gómez Sigala, afirma que a escassez é fruto do "excesso de controle do governo", tanto na regulação dos preços como no acesso às divisas para a importação dos produtos. Desde 2003, vigora um controle de câmbio no país, razão pela qual todas as atividades comerciais com moeda estrangeira são reguladas pelo Estado. "O problema político é do governo, não tem nada a ver com eleições", afirmou Sigala à BBC Brasil. Já a federação Empresários pela Venezuela, grupo próximo ao governo, discorda. Para o presidente desta organização, Alejandro Uzcátegui, o problema é "fundamentalmente eleitoral". "Trata-se de uma estratégia desestabilizadora. Esses empresários pretendem afetar o resultado das eleições do domingo, assim como tentaram fazer no ano passado com as eleições regionais", afirmou Uzcátegui à BBC Brasil. "Esses grandes monopólios ainda controlam a produção e a distribuição. Eles preferem perder dinheiro, estocando os produtos, sempre e quando possam afetar o governo", acrescentou. Em outro supermercado, também no leste de Caracas, onde reside a maioria dos opositores do presidente Hugo Chávez, as prateleiras reservadas para os alimentos de primeira necessidade estavam vazias. Para o consumidor Alfonso Benitez, a responsabilidade é do presidente venezuelano. "A culpa é dele, isso mostra sua má administração", afirmou. Outro fator que aumenta o desabastecimento em períodos pré-eleitorais são as chamadas "compras nervosas". "Já não tem muito e o pessoal vem e enche os carrinhos, estoca mesmo, com medo de que alguma coisa possa sair mal nas eleições", disse Benitez. O trauma mais recente gerado pelo desabastecimento de alimentos tem origem no locaute empresarial de 2002, quando a federação de empresários Fedecámaras, aliada à estatal petrolífera PDVSA, decidiu paralisar suas atividades com o objetivo de atingir o governo. O locaute durou 62 dias e provocou escassez de alimentos em todo o país. No mesmo supermercado, outra consumidora mostrava irritação. "O que quero é viver em paz, já não aguento mais votar. Todo dia tem eleição neste país", afirmou a empresária Maritza Fernandez.   O referendo do próximo domingo será a 15ª eleição da qual participarão os venezuelanos em uma década do governo Chávez. A situação é completamente oposta para os moradores da periferia oeste de Caracas. nos mercados populares subsidiados pelo governo (Mercal e Pdval), onde a população compra alimentos com até 70% de desconto, não há escassez. "Aqui tem de tudo, o que falta às vezes é dinheiro", afirmou, em tom bem-humorado, o motoboy Jitson Huerta, morador do bairro de La Vega. Os mercados do governo são abastecidos com importações provenientes principalmente do Brasil e da Colômbia. Na Venezuela, que mantém uma economia dependente da exportação petrolífera, cerca de 70% dos alimentos são importados. Ao longo do ano passado, o Ministério de Alimentação anunciou a importação de milhares de toneladas de alimentos como medida para evitar o desabastecimento nos mercados subsidiados. Governistas consideram que uma das razões que levou à derrota o governo no referendo da reforma constitucional em 2007 foi a escassez de leite e de outros produtos da cesta básica, que afetou principalmente aos moradores das periferias, onde está a principal base de apoio do governo. Espera-se que mais de 16 milhões de venezuelanos compareçam às urnas para opinar sobre o referendo que, se for aprovado, permitirá ao presidente Hugo Chávez disputar um terceiro mandato presidencial. Caso contrário, o presidente venezuelano terá de deixar o governo em 2013, quando termina seu segundo mandato.   BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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