Disputa pela África
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Disputa pela África

Países africanos começam a sentir a ausência das empreiteiras brasileiras

Lourival Sant'Anna, O Estado de S. Paulo

21 de abril de 2019 | 05h00

Antes do suicídio do ex-presidente Alan García, a “Equipe Especial Lava Jato”, como é chamada a força-tarefa que investiga o esquema de corrupção da Odebrecht no Peru, já estava sob pressão da cúpula do Ministério Público. Em parte por vínculos dessa cúpula com o grupo de Keiko Fujimori, líder da oposição, que controla 73 das 130 cadeiras do Parlamento, e está na prisão em razão das investigações; em parte por ter visto reduzido seu poder – incluindo o de se corromper.

O presidente Martín Vizcarra tem bancado a força-tarefa, cujas investigações envolvem quatro ex-presidentes. Graças a ele, o ex-procurador-geral Pedro Chávarry acabou renunciando depois de tentar destituir os dois principais investigadores. Chávarry é acusado de vender investigações. Entretanto, o suicídio do político peruano mais emblemático, na Semana Santa, em um país profundamente católico, reforça a pretensa posição de vítimas dos réus.

O órgão de controle interno do Ministério Público abriu sindicância contra os procuradores, por suspeita de abuso de poder. Em meio à comoção causada pelo suicídio, é essa sindicância que pode resultar em uma violação de direitos, advertiram em carta aberta os investigadores. Com ampla maioria no Congresso, os fujimoristas – além de Keiko, seu pai, Alberto, também está preso – agora tentam emparedar Vizcarra.

Escrevo de Adis-Abeba, na Etiópia, e aqui na África se percebe o vácuo deixado pelas empreiteiras brasileiras, que antes tinham forte presença . A Queiroz Galvão fechou seu escritório em Adis há um ano e meio. Construído pela Odebrecht na década passada, o Porto de Djibuti ficou conhecido como “Le Port Brésilien”. É a principal saída da Etiópia para o mar. Depois de uma briga judicial com os Emirados Árabes Unidos, que o administravam, o Djibuti planeja entregá-lo a uma empresa chinesa.

Assim como em outros países africanos e sul-americanos, a China tem investido – e endividado – pesadamente na Etiópia. Com resultados questionáveis, tanto do ponto de vista da conveniência dos projetos quanto da transparência dos contratos. Um exemplo visível é o veículo leve sobre trilhos de Adis-Abeba, inaugurado em 2015. Estudos internos do próprio Ministério dos Transportes etíope mostram que, com os mesmos US$ 475 milhões, seria possível fazer corredores de ônibus, que atenderiam a muito mais moradores. 

As empresas chinesas – assim como as brasileiras, antes da Lava Jato – entram na África dispostas a jogar o jogo de governos corruptos. Isso obviamente não é desejável para o capitalismo brasileiro: além do problema ético, a corrupção contamina as empresas. Assim como as pessoas, empresas não são meio honestas. É por isso que a Justiça dos países avançados pune severamente atos de corrupção cometidos por funcionários de suas empresas, mesmo que em países longínquos. Mas há uma diferença entre punir executivos – incluindo donos – e inviabilizar um setor, como se fez no Brasil. 

Não há uma resposta clara para o que se deve fazer com as empreiteiras envolvidas na Lava Jato, porque não há precedentes, no mundo, de um esquema de corrupção dessa envergadura. Não defendo que se salvem as empreiteiras brasileiras a qualquer custo. É possível que sua doença realmente não tenha cura. 

Só vejo infeliz coincidência entre o desbaratamento das empreiteiras e a ascensão de um governo no Brasil que parece querer dar as costas à África para se distanciar dos desatinos do governo Lula aqui. A África é a última fronteira do capitalismo. Há oportunidades para o Brasil aqui também. Não é preciso escolher entre a África e alguma outra região. É preciso estar atento ao mundo todo.

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