Patrick Semansky/AP
Patrick Semansky/AP

Disputa pela Suprema Corte pode intensificar a batalha pelo Senado

Republicanos saem em defesa da nomeação da vaga da ex-ministra Ruth Bader Ginsburg pelo presidente Donald Trump

Carl Hulse, The New York Times, O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2020 | 08h05

Logo depois da morte da juíza Ruth Bader Ginsburg, na sexta-feira, a senadora Kelly Loeffler, republicana da Geórgia em uma dura disputa para ficar com a cadeira para a qual foi eleita em 2019, correu para declarar que apoiaria o presidente Donald Trump no preenchimento da vaga aberta na Suprema Corte, poucas semanas antes de os americanos irem às urnas. E ela queria que os eleitores soubessem que ela não hesitara.

"Como primeira senadora dos Estados Unidos a pedir uma indicação, espero apoiar um construcionista rigoroso, que protegerá o direito à vida, defenderá a Segunda Emenda, lutará pela liberdade religiosa e irá salvaguardar nossos valores", escreveu Loeffler em uma mensagem de arrecadação de fundos enviada para seus apoiadores na sexta à noite.

Loeffler pode ter sido a primeira republicana em perigo a abraçar a nomeação de Trump, na esperança de que isto pudesse impulsioná-la em uma campanha difícil - mas ela certamente não foi a última. Os senadores Martha McSally, do Arizona, e Thom Tillis, da Carolina do Norte, rapidamente seguiram seu exemplo, em uma indicação de quão profundamente a disputa pela indicação à Suprema Corte pode embaralhar uma batalha já intensa pelo controle do Senado.

A intensificação da disputa pela vaga deixada por Ginsburg lançou um novo elemento volátil na já intensa batalha pelo Senado, aumentando a incerteza sobre os resultados. Embora seja difícil prever exatamente como a luta vai se desenrolar nas dezenas de corridas eleitorais que vão determinar quem detém a maioria no Senado, os dois lados pretendem usar o processo a seu favor.

Ainda que a eleição presidencial esteja tomando boa parte das atenções, é possível que o confronto da Suprema Corte tenha um efeito maior sobre as corridas individuais para o Senado, dado o papel direto que os senadores terão para decidir o que acontecerá - e quando acontecerá.

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Ao avaliarem o cenário, os estrategistas republicanos disseram que veem o conflito na Suprema Corte como um benefício para seu lado. Um dos principais conselheiros do partido admitiu que isto pode ser problemático para candidatos como os senadores Cory Gardner, do Colorado, e Susan Collins, do Maine, ambos concorrendo em estados onde Trump é um obstáculo para suas chances.

Mas, para senadores republicanos como Tillis e Joni Ernst, de Iowa, que estão ficando para trás em estados onde o presidente venceu há quatro anos, o conselheiro disse que o debate abre uma oportunidade valiosa para enfatizar sua fidelidade a Trump e sublinhar o que está em jogo na eleição. Esses estados com tendência mais republicana provavelmente serão decisivos na determinação do controle do Senado.

Os republicanos também apontam para 2018, quando a batalha tóxica pela nomeação do juiz Brett Kavanaugh energizou os eleitores de seu partido, que barraram reeleições de candidatos democratas nos estados conservadores de Indiana, Missouri e Dakota do Norte. Os principais estrategistas do partido disseram que a história eleitoral sugere que uma disputa pela Suprema Corte seria uma vitória política para os republicanos, especialmente porque muitas das corridas mais apertadas pelo Senado estão acontecendo em estados onde Trump ganhou.

Mas os democratas veem uma vantagem clara para seus candidatos. Eles observaram que a abertura da vaga na Suprema Corte já impulsionou a arrecadação de fundos. E também argumentaram que o fato motivaria os eleitores que ficariam indignados com aquilo que consideram uma hipocrisia dos republicanos, os quais em 2016 barraram o indicado do então presidente Barack Obama para a Suprema Corte, dizendo que era o próximo presidente quem deveria escolher o novo juiz.

Os democratas disseram ainda que a indicação permitiria que seus candidatos enfatizassem que um tribunal reconfigurado por Trump representaria uma ameaça à lei que institui o chamado Obamacare, até então mantida por apenas um voto. Preservar a lei foi uma grande vitória para os democratas em 2018 e é um tema importante da campanha do partido novamente este ano.

Os democratas também criticaram os republicanos por se comprometerem imediatamente a confirmar a escolha de Trump, mesmo sem saber a identidade do nomeado, dizendo que as reações enfatizaram sua lealdade inquestionável ao presidente, a qual eles argumentaram que afastaria muitos eleitores.

"Os republicanos foram arrastados durante todo o ciclo por se recusarem a enfrentar o presidente pelo que é certo, votando para destruir proteções de saúde para doenças preexistentes", disse Lauren Passalacqua, porta-voz do Comitê de Campanha Senatorial Democrata. "A questão de preencher esta vaga joga uma luz ainda mais brilhante sobre essas vulnerabilidades".

Todos os candidatos democratas pediram que o Senado adie qualquer confirmação até depois da posse do próximo presidente, em 20 de janeiro.

"Quando se trata de fazer uma nomeação vitalícia para a Suprema Corte, Washington não deve apressar o processo por motivos políticos", disse Mark Kelly, o ex-astronauta que está desafiando McSally no Arizona.

Collins também pediu uma pausa até depois da eleição, dizendo que é o vencedor das eleições de 3 de novembro quem deve indicar o próximo juiz. Sua posição sugere que Collins, na luta pela reeleição, pode tomar a disputa pela vaga na Suprema Corte como uma graça salvadora, usando-a para tentar mostrar independência em relação a Trump e restaurar sua boa-fé moderada, a qual acabou manchada depois que ela apoiou Kavanaugh em 2018.

Mas Nathan Gonzales, editor do boletim apartidário Inside Elections, disse que não acredita que essa posição ajudaria a republicana do Maine, que pesquisas recentes mostraram estar atrás de sua adversária democrata, Sara Gideon.

"Mesmo que Collins possa atrasar o anúncio de uma decisão sobre a escolha de Trump, a situação já lembra aos eleitores democratas o seu voto em Kavanaugh", disse Gonzales, acrescentando que a "questão polarizadora a deixa ainda mais vulnerável".

A disputa pela vaga também deve aumentar à medida que a campanha eleitoral levantar questões sobre ameaças de eliminar a obstrução do Senado e agregar cadeiras à Suprema Corte - questões que os republicanos acreditam que afastam eleitores moderados e independentes. Vários democratas sugeriram que seu partido retaliaria se os republicanos procedessem com a confirmação, uma perspectiva que empolga seus principais apoiadores.

"Isso coloca os candidatos democratas na desconfortável posição de ter de revelar aos eleitores que são inteiramente controlados por Chuck Schumer e pela ala rebelde dos extremistas liberais que sequestraram o Partido Democrata", disse Jesse Hunt, porta-voz do Comitê Senatorial Republicano, referindo-se ao líder democrata no Senado. "O que era um segredo mal guardado será agora exposto, prejudicando as chances dos democratas de apelar para eleitores independentes em disputas importantes para o Senado". / Tradução de Renato Prelorentzou

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