Disputa pelo patrimônio de Nelson Mandela torna-se pública

Duas filhas do ex-presidente da África do Sul brigam na Justiça para controlar a fortuna do pai

LYDIA POLGREEN, THE NEW YORK TIMES , JOHANNESBURGO, O Estado de S.Paulo

27 Maio 2013 | 02h02

Nelson Mandela ficou pálido quando ele soube que, com a ajuda de um advogado que ele dispensara, duas de suas filhas tentavam se meter na administração de seus bens. Por isso, em abril de 2005, chamou as duas - Makaziwe e Zenani Dlamini - para uma conversa. Segundo pessoas que presenciaram o encontro, ele passou uma descompostura nas filhas.

"Mandela deixou claro que as duas deveriam se manter longe de seus negócios", afirmou em juízo Bally Chuene, atual advogado do ex-presidente sul-africano. Na época, elas aceitaram a decisão do pai de nomear dois gestores independentes - o próprio Chuene e o advogado George Bizos - para administrar o Mandela Trust, fundo que ele criou para ajudar a família.

Mas, segundo depoimentos de Chuene e Bizos, as filhas recorreram a Ismail Ayob, advogado com quem Mandela cortara relações, para reformular o documento que instituiu o fundo. A partir de 2011, começaram a tentar distribuir seu patrimônio - de cerca de US$ 1,3 milhão - entre os filhos e netos de Mandela, desrespeitando o desejo do pai de que o dinheiro beneficiasse também outras gerações.

O desentendimento foi parar na Justiça, com as filhas tentando tirar Bizos e Chuene do conselho de administração de duas empresas. O caso revela uma disputa para decidir quem terá o controle do patrimônio de Mandela após sua morte.

Os últimos documentos que vieram à tona nessa batalha jurídica deixam a impressão de que as filhas tentam passar por cima da vontade de Mandela. Com 94 anos e um estado de saúde frágil, Mandela passou 27 anos na prisão e tornou-se o primeiro presidente negro do país. Retirou-se da vida pública em 2004 e sumiu de vista.

Não se conhece o valor do patrimônio da família. Mandela tinha um salário como presidente, além de contar com uma pensão. Sua autobiografia foi um best-seller, mas ele nunca trabalhou no setor privado e acredita-se que seu patrimônio pessoal seja modesto.

Mandela foi o primeiro a reconhecer que, por ter dedicado a vida à luta contra o apartheid e ter passado tanto tempo preso, sua família ficou em segundo plano. Ele teve seis filhos com duas mulheres, das quais é divorciado. Hoje está casado com Graça Machel, ex-primeira-dama de Moçambique.

Uma segunda reunião familiar, em junho de 2006, abalou as relações de Mandela com as filhas. "Foi uma conversa dura e desagradável", disse Chuene em seu depoimento. "Mandela estava irritado." Suas filhas, segundo ele, foram usadas por Ayob e continuaram a manter contato com ele mesmo após o rompimento com Mandela.

Em agosto de 2011, Dlamini Mandela, que é embaixadora da África do Sul na Argentina, convocou uma reunião familiar para "falar sobre as dificuldades financeiras por que ela estava passando". Na reunião, membros da família solicitaram que o dinheiro fosse direcionado para ela. Mas Bizos se negou.

"Na condição de confidente de Mandela, sei que seu desejo foi o de garantir o sustento e a educação de seus beneficiários, entre os quais se incluem as gerações futuras", disse Bizos em juízo. "Em razão disso, fiquei preocupado ao ser informado, em 2004, de uma proposta de distribuição, em desembolsos únicos, de quase todo o capital do Mandela Trust."

Pouco depois, Ayob começou a escrever cartas para integrantes do conselho exigindo a renúncia de Bizos. Como a exigência não foi aceita, as filhas de Mandela entraram na Justiça e a batalha tornou-se pública. / TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER

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