EFE/Michael Reynolds
EFE/Michael Reynolds

Disputa política leva republicanos a atacar departamento isento

Embora o Escritório de Orçamento do Congresso possa entender erroneamente algumas coisas com relação à reforma da saúde, no geral, fez projeções corretas sobre os efeitos do Obamacare

Paul Krugman / THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

14 de março de 2017 | 05h00

Cerca de 10,3 milhões de vagas de emprego foram abertas durante o segundo mandato do presidente Barack Obama, com a taxa de desemprego caindo para menos de 5%. Além disso, diversos indicadores sugerem que, no ano passado, o país estava muito próximo do pleno emprego. No entanto, Donald Trump insistia que as boas notícias eram falsas, que o país na verdade sofria com desemprego em massa.  

Então, veio o primeiro relatório sobre o emprego no governo Trump, com aumento de 235 mil vagas, o que parece muito ser uma continuação da tendência anterior. Agora, o governo reivindicou o crédito: segundo o porta-voz de Trump, os dados sobre o emprego “podem ter sido falsificados no passado, mas agora são bem reais”.

O resultado do Obamacare foi o forte declínio no número de americanos sem seguro-saúde. Você pode afirmar que a queda deveria ter sido muito mais forte, que pode haver problemas mais adiante ou deveríamos propor algo melhor. Mas o que foi de fato obtido com essa lei não pode ser questionado e deve haver preocupação com as consequências do “Trumpcare”, que deve anular cláusulas muito importantes do plano de Obama.

Ocorre que os republicanos rejeitam os ganhos recentes. O presidente da Heritage Foundation descartou os efeitos positivos da lei promulgada por Obama como “informações falsas”. Em Louisville, no fim de semana, o vice-presidente Mike Pence declarou que “o Obamacare não atendeu à população de Kentucky” – isso em um Estado onde a porcentagem de pessoas sem seguro de saúde caiu de 16,6% para 7%. Quanto aos prováveis impactos do Trumpcare, no entanto, eles não querem nem saber.

Quando o Congresso analisa uma legislação de grande importância, normalmente aguarda que o Escritório de Orçamento do Congresso (CBO, na sigla em inglês) faça uma avaliação da proposta para calcular seus efeitos sobre as receitas, as despesas e outras metas. O órgão nem sempre está certo, mas tem um histórico muito bom comparado a outros canais que fazem esse tipo de análise. E, o que é mais importante, ele sempre foi escrupuloso no sentido de evitar partidarismos, atuando como um importante fiscal de ideias delirantes com motivações políticas.

No entanto, os republicanos inseriram à força o Trumpcare em comissões chave na calada da noite, sem esperar a avaliação do CBO, e preventivamente vêm atacando a credibilidade do escritório. Na verdade, embora o CBO possa entender erroneamente algumas coisas com relação à reforma da saúde, no geral, fez projeções corretas sobre os efeitos do Obamacare – projeções que foram muito melhores do que as pessoas que o atacaram e previram desastres que jamais ocorreram. 

Qualquer que seja a crítica que pode ser feita sobre a avaliação do Trumpcare, certamente ela será melhor do que a feita por Tom Price, secretário da Saúde, de que “ninguém será prejudicado financeiramente” em consequência de um plano que corta subsídios drasticamente e eleva os preços para milhões de americanos.

Portanto, não cometa o erro de descartar o ataque contra o CBO como sendo apenas uma disputa técnica. Isso faz parte de uma briga muito mais séria, na qual o que está em jogo é se ignorância é força e se o homem que está na Casa Branca é o único dono da verdade. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É COLUNISTA

 

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