Disputa por poder se intensifica no Oriente

Para analista, chegada da democracia à região é mais lenta que o avanço da guerra fria entre [br]Irã e Arábia Saudita

Gustavo Chacra, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2011 | 00h00

CORRESPONDENTE / NOVA YORK

A guerra fria no Oriente Médio entre os xiitas do Irã e os sunitas da Arábia Saudita se intensificou com os levantes no mundo árabe. Antes restrito ao Líbano, Iraque e territórios palestinos, o conflito agora se ampliou para o Bahrein e nos próximos dias pode atingir a Síria, que nesta semana também passou a enfrentar protestos contra o regime.

"A democracia está chegando ao Oriente Médio, ainda que vagarosamente. Mas o que tem progredido mais rapidamente é a guerra fria entre o Irã e a Arábia Saudita", escreveu nesta semana o analista e escritor Meir Javendar em artigo publicado no The Guardian. Esta disputa, sempre comentada nas mesas dos cafés de Beirute, agora é discutida em outras capitais do mundo árabe, na Europa e EUA.

Neste momento, enquanto observam os acontecimentos na Síria, tropas sauditas estão em Bahrein para defender a monarquia sunita, que representa 30% da população nativa do país.

Já o Irã tem dado apoio à maioria xiita (70% do total), apesar de não estar envolvido diretamente no conflito no Bahrein. Órgãos de imprensa em Teerã condenam a ação saudita no Bahrein. O aiatolá Ahmad Jannati, um dos mais poderosos do Irã, disse que "os iranianos precisam apoiar os xiitas" de Bahrein.

A decisão da Arábia Saudita de entrar no Bahrein, a pedido da monarquia Al-Khalifa, foi tomada por causa do temor de que a minoria xiita que habita a região saudita do outro lado da ponte ligando os dois estados desencadeasse uma onda de protestos.

Neste embate, Riad recebe o apoio dos EUA e, apesar de não manter relações formais, tem os mesmos interesses que Israel na região. Segundo documentos do Departamento de Estado vazados pelo WikiLeaks, a Arábia Saudita defendeu uma ação militar israelense ou americana contra o Irã.

Iranianos e sauditas também estão em lados opostos no Líbano, territórios palestinos e Iraque. A Arábia Saudita apoia os sunitas ligados ao premiê Saad Hariri em Beirute, o Fatah na Cisjordânia e o opositor Ayad Allawi em Bagdá. O Irã é aliado do Hezbollah na capital libanesa, do Hamas em Gaza, do premiê Nuri al-Maliki e do clérigo radical xiita Muqtada al-Sadr no vizinho Iraque, além de dar apoio aos rebeldes houthis no Iêmen.

Regime isolado. Analistas começam a fazer previsões sobre o que pode ocorrer na Síria. Cliff Kupchan, do Eurasia Group, afirma que "qualquer tensão entre o segundo e o quarto maiores produtores mundiais de petróleo - Arábia Saudita e Irã - causa apreensão". Em Damasco, com suas divisões sectárias e étnicas, o cenário tende a ser ainda mais grave. Isolado, o regime sírio, ao longo dos últimos anos, tinha se aproximado de Teerã. No ano passado, os Estados Unidos e a Arábia Saudita tentaram atrair os sírios para seu lado. "Eles tinham os mesmos interesses no Iraque e viam a Síria como necessária para a estabilização do Líbano", diz Reva Bhalla, da consultoria de risco político Stratfor.

No começo, deu certo e a Síria parecia mudar de lado. O símbolo dessa aproximação foi a viagem conjunta do rei Abdullah e Bashar Assad a Beirute. As visitas do premiê libanês, Saad Hariri, a Damasco também foram marcantes e irritaram o Irã.

"Os iranianos ficaram insatisfeitos com a intervenção síria em assuntos iraquianos", disse uma figura ligada a Hariri. Neste momento, Ahmadinejad, desafiando Assad e deixando claro o esfriamento nas relações, viajou ao Líbano, considerado zona de influência síria. Nos meses seguintes, segundo Bhalla, o líder sírio ficou insatisfeito com a falta de retorno dos EUA, que não levantou as sanções unilaterais. Sem alternativa, voltou a se aliar a Teerã.

Em um novo acordo com os iranianos, Assad teria deixado de se intrometer no Iraque. Em troca, voltou a dar as cartas em Beirute, instalando Najib Mikati no poder. Mas na semana seguinte começaram os levantes no Egito, que agora chegam a Damasco.

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