Megan Varner/Getty Images/AFP
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Disputa por Senado põe todo foco na Geórgia

Segundo turno da eleição para escolha de dois senadores pode definir quem controlará a Casa

Leandra Felipe, especial para o Estadão, O Estado de S.Paulo

09 de novembro de 2020 | 05h00

ATLANTA - Se a disputa para a presidência dos EUA foi definida, a campanha política na Geórgia continua nas ruas até janeiro do ano que vem. Após o anúncio da vitória democrata, os olhos do país agora se voltam ao Estado de Martin Luther King graças à disputa por duas vagas no Senado que podem definir se os democratas terão maioria no Senado ou não. 

Passam pelo Senado desde a aprovação do ambicioso plano sobre mudanças climáticas, a governabilidade de Joe Biden e a facilidade de passar reformas prometidas na campanha. Analistas e eleitores acreditam que os ânimos e tensões vão se acirrar nas próximas semanas na Geórgia – e um dos maiores desafios será fazer as pessoas saírem de casa para uma eleição que normalmente não desperta muitas paixões. 

“Pode ser que aconteçam protestos nas ruas”, acredita o gestor de projetos Ray Reboulet, de 59 anos. Embora não se identifique com o perfil de Donald Trump, votou na chapa republicana por sua afinidade com as ideias do partido. Ele se diz preocupado com a possibilidade de uma ampla maioria democrata em Washington, o que poderia, em sua visão, levar ao desequilíbrio até mesmo no Judiciário. 

Analisando o Senado, diz que um empate seria interessante. “Adoraria ver um Senado igualmente dividido, porque assim eles [democratas e republicanos] teriam de recomeçar a conversar e dialogar entre eles”, destacou. 

Os democratas apostam todas as fichas para conseguir eleger os dois senadores na Geórgia, o que colocaria o Senado em condição de empate ou igualdade numérica. Caso isso ocorra, o voto de desempate na Casa seria da vice-presidente eleita Kamala Harris. Em 2020, 35 cadeiras no Senado estão em disputa. O segundo turno do Estado opõe o veterano senador republicano Alfred Perdue Jr., de 70 anos, e o jovem democrata Jon Ossoff, de 33. A diferença entre eles é de menos de dois pontos porcentuais. 

A outra vaga – em uma eleição especial pela aposentadoria do Senador Johnny Isakson – vai ser disputada entre o democrata Raphael Warnock, que obteve 32,9% no primeiro turno, e pela senadora estadual republicana Kelly Loeffler, que teve 25,9%. Warnock é representante da comunidade negra de Atlanta e desde 2005 é o pastor da Igreja Batista Ebenézer, a histórica congregação de Martin Luther King Jr.

A gerente de vendas Kristy Sheppard, que votou na chapa Biden/Harris, espera que o momento de empolgação do eleitor democrata não se esfrie no segundo turno para o Senado. “Se os democratas vencerem aqui, terão efetivamente o Senado, a Câmara e a presidência”. 

Nascida na Geórgia, de uma família branca e religiosa conservadora, Kristy, de 28 anos, comentou que foi se distanciando da identidade política de seu entorno familiar. Agora, se identifica com as ideias do senador democrata Bernie Sanders, considerado um dos maiores responsáveis pelo despertar de eleitores jovens entre os democratas. 

Falando das eleições do começo de janeiro, a jovem diz com firmeza: “Claro que vou votar nas eleições para os candidatos democratas!”. Os republicanos devem unir todos os esforços para eleger seus candidatos e impedir que uma vitória dos democratas os deixe em desvantagem total no Congresso, uma vez que na Câmara a maioria será democrata. 

“O foco político nacional vai ser aqui. Vamos ver muita tensão neste segundo turno para o Senado”, disse Daniel Franklin, professor de ciência política da Universidade Estadual da Geórgia. “Vamos ver Biden e Harris por aqui, talvez Trump e Pence. Além de grandes nomes dos dois partidos também vai haver muita campanha publicitária, com dinheiro de várias partes do país”. 

Para Daniel Franklin, o desafio será maior para os democratas. Em segundos turnos anteriores, eles foram derrotados na maioria das vezes. “A abstinência democrata e, especialmente da população negra, é mais alta, principalmente em uma eleição de menos apelo.”

A socióloga e analista Deirdre Oakley vê chance de uma vitória democrata graças à mudança demográfica do Estado, combinada com eleitores brancos que se afastaram de Trump na eleição de 2016.

Entre 2010 e 2019, a população da área metropolitana de Atlanta passou de 5,3 milhões para 6 milhões. Oakley avalia o sucesso democrata desta eleição também pelo engajamento do eleitorado negro. Para ela, foi fundamental o papel da ex-candidata democrata ao governo Stacey Abrams, derrotada em 2018, pelo republicano Brian Kemps. 

Nova demografia

A socióloga e analista Deirdre Oakley vê chance de uma vitória democrata graças à mudança demográfica do Estado - com subúrbios cada vez mais diversos. Observa, além disso, uma combinação de eleitores brancos que se afastaram de Trump, na eleição de 2016, e maior participação do eleitorado não branco neste ano.

Entre 2010 e 2019, a população da área metropolitana de Atlanta passou de 5,3 milhões para cerca de 6 milhões, segundo dados do US Census Bureau de 2019. Oakley avalia o sucesso democrata desta eleição também pelo engajamento do eleitorado negro. 

Para ela, foi fundamental o papel da ex-candidata democrata ao governo Stacey Abrams, derrotada por uma margem muito pequena de votos em 2018, pelo republicano Brian Kemps. 

Como funciona o segundo turno 

A votação em segundo turno para o Senado, chamada de runoff, é comum em alguns estados do Sul dos Estados Unidos, como na Geórgia. Se os candidatos ao Senado não alcançam a maioria de votos, 50% mais um, o segundo turno é realizado. Com um sistema bipartidário, a questão de um candidato receber menos de 50% dos votos não ocorre com frequência, mas o cenário polarizado da Geórgia ocasionou a possibilidade dois runoffs.

O analista Daniel FranklIn conta que há uma história por atrás disso. “Em algum momento, o legislador no Sul adotou essa ferramenta para favorecer a eleição de pessoas brancas, evitando que candidatos negros vencessem”.

A população negra da Geórgia, segundo o censo dos EUA de 2019, é de 31.9%, ante 57.8% de brancos, e o restante divididos entre hispânicos, asiáticos, nativos e outras raças.  “Este sistema é totalmente excludente; foi um instrumento usado para garantir que as minorias não tivessem chance de representação”, sublinhou FranklIn.

O que ocorre agora com a soma do aumento da diversidade demográfica é que a soma dos votos de negros, brancos e liberais e outros pode ultrapassar os 50%. “Em algum ponto, e quem sabe seja agora, vamos ver isso acontecer”.

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