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Disputa sobre imigrantes causa tensões na Itália

Coalizão discute por questão migratória e ameaça governo na véspera de eleição da UE

Gilles Lapouge, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

23 de maio de 2019 | 05h00

Na Itália, o governo que está no cargo há um ano atrelou uma parelha nada natural. À direita trota um cavalo elegante, distinto, rico, um pouco esnobe, enquanto à esquerda vai um grande cavalo de trabalho, sujo de esterco, que prefere os pobres do sul aos aristocratas requintados de Veneza ou Milão. 

Há algumas semanas, incidentes puseram em oposição essas duas metades. De um lado está o poderoso e sedutor ministro do Interior, Matteo Salvini; do outro, o ministro Luigi di Maio, do Movimento 5 Estrelas (M5S), criado há dez anos pelo comediante Beppe Grillo, um demagogo que nunca é ouvido. 

As duas partes governam juntas, mas concordam apenas em um ponto: tanto uma como a outra são violentamente hostis à União Europeia. Fora isso, elas pouco têm em comum. Salvini, chefe da Liga, de tendência neofascista, fez da guerra aos migrantes um cavalo de batalha. Seu método é radical: fechar os portos aos barcos que descarregam regularmente sua carga humana. A medida tem sido bem recebida na Itália, pois esse fluxo de pessoas “sem eira nem beira” é um fardo para o país. 

A crueza de Salvini seduz ainda países do Leste Europeu (Polônia e Hungria), que também fecharam suas fronteiras para repelir sírios, iraquianos, somalis e africanos que tentam entrar na Europa. Além do mais, Salvini tem boas relações com Donald Trump.

Seus colegas de governo do M5S fizeram silêncio. É preciso dizer que Salvini tem vários trunfos: a aprovação da maioria dos italianos, cansados de ver chegar aos portos as cargas de migrantes; o proclamado apoio dos países do Leste Europeu; e sua função de ministro do Interior, em cuja pasta estão as questões migratórias. 

Mas ele tem ainda uma outra vantagem, e não pequena: é um homem poderoso, brilhante, que fala bem (é difícil se opor a sua dialética). Seja como for, o fato é que há um ano não se ouviam muitos protestos do M5S contra os métodos musculares de Salvini. Não se ouviam. 

Um barco humanitário alemão, o Sea X Watch 3, desafiando as ordens de Salvini, chegou ao Porto de Lampedusa e, após quatro dias de espera, teve permissão para atracar. Salvini recebeu a notícia em meio a uma reunião em outra cidade italiana. Leu o e-mail e empalideceu. Mas conteve sua cólera e ordenou uma busca para saber quem se permitira desafiá-lo. 

O culpado era o ministro dos Transportes, Danilo Toninelli, que por infelicidade pertence ao M5S. Foi uma segunda explosão contida de cólera. Salvini exigiu explicações de Luigi di Maio, também ministro de governo, que respondeu: “Não aceito que Salvini nos ataque. O barco foi apreendido pela Justiça e, quando isso ocorre, quem está a bordo tem de desembarcar. Portanto, que não se acuse o Movimento 5 Estrelas pelo desembarque”. 

Vamos esperar alguns dias, pelo menos até depois das eleições europeias. Então, saberemos se essa querela foi só marola ou se trata de um “casus belli”. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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