Disputas políticas atrasam designação do novo presidente argentino

Até o fim da noite desta terça-feira, o senador justicialista (peronista) Eduardo Duhalde continuava a esperar ser designado Presidente da República pela Assembléia Legislativa, denominação dada à sessão conjunta extraordinária da Câmara de Deputados e do Senado. A perspectiva era que a sessão entrasse pela madrugada. O dia foi tenso também do lado de fora do Congresso. A uma quadra de distância, centenas de manifestantes esquerdistas e peronistas entraram em choque, atirando-se pedras e garrafas. O tumulto só acabou com a chegada da polícia, que usou balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo para acabar com a briga. A Assembléia Legislativa começou com quatro horas de atraso, depois de intensas negociações com diversos setores do próprio partido peronista que resistiam à idéia da designação de Duhalde, além de discordar da suspensão das eleições diretas para presidente em 3 março deste ano. Havia, no entanto, uma percepção generalizada de que Duhalde seria indicado. O próprio Duhalde expôs seu plano de governo a diversos parlamentares peronistas, antes do início da sessão do Congresso. O tom dos assessores de Duhalde indicava que seu governo seria ?de salvação nacional?. E não era à-toa. O país está há três anos e meio em recessão ? um recorde histórico na Argentina ? e índice de desemprego oficial de 18,3% (muitos analistas de fora do governo calculam em mais de 22%). No último mês, as vendas do comércio despencaram 43%, enquanto a arrecadação tributária teria caído 40%, uma proporção sem precedentes. Como se fosse pouco, na semana passada o governo anterior declarou a suspensão do pagamento da dívida externa pública, e a Argentina não conta com ajuda financeira alguma do exterior. A intenção de Duhalde é ser empossado na Casa Rosada, a sede do governo, com um mandato presidencial até dezembro de 2003, completando assim o governo inacabado do ex?presidente Fernando De la Rúa. Desta forma, tendia a ficar descartada a possibilidade de eleições presidenciais no dia 3 de março deste ano, para a escolha de um presidente pelo voto popular. Diversos parlamentares sustentavam que a discussão sobre a designação de Duhalde poderia varar a noite, e que sua eventual escolha ocorreria somente na madrugada desta quarta-feira. Se Duhalde for eleito, será a primeira vez, desde meados do século XIX, que um ex-governador da província de Buenos Aires se torna presidente da Argentina. Durante mais de um século e meio, nenhum governador bonaerense conseguiu chegar à Casa Rosada, apesar da imensa importância econômica e eleitoral que a província tem no país. A resistência à candidatura de Duhalde foi liderada pelo governador da província de Córdoba, o peronista José Manuel de la Sota, e outros dois governadores de províncias menores. Este grupo desejava a realização de eleições presidenciais de março. Mas, no início da noite, segundo o presidente interino da República, Eduardo Camaño, as divergências já ?haviam sido solucionadas?. A demora na designação de Duhalde evidenciava as profundas divisões que costumam existir no peronismo quando não existe um caudilho capaz de unir as diversas facções. Pela segunda vez em menos de duas semanas, o peronismo voltava a mergulhar em uma profunda disputa interna pela conquista do poder. Dez dias antes, no sábado, 22 de dezembro, a indefinição sobre a designação de Adolfo Rodríguez Saá como presidente da República, atrasou sua eleição até domingo, 23. Sem contar com apoio em seu próprio partido, justicialista Rodríguez Saá sobreviveu no cargo somente uma semana, renunciando no dia 30. No fim desta terça-feira, Duhalde havia obtido o apoio do principal partido da oposição, a União Cívica Radical (UCR), e da centro-esquerdista Frepaso. Além disso, havia conseguido o respaldo do Ação pela República, partido do ex?ministro da Economia, Domingo Cavallo. Um dos pontos do acordo entre Duhalde e as lideranças peronistas favoráveis a ele, além das lideranças da oposição, era o compromisso de ele não se candidatar à reeleição em outubro de 2003. Além disso, o potencial novo presidente teria oferecido um par de ministérios à UCR. Um dos cargos que poderia ficar nas mãos da UCR seria o das Relações Exteriores. Por este motivo, não se descartava a possibilidade de que retornasse ao cargo o ex?chanceler Adalberto Rodríguez Giavarini. Duhalde também designaria o deputado peronista Jorge Remes Lenicov o novo ministro da Economia. O ex?vice-ministro da Economia Daniel Marx voltaria à equipe econômica, para mais uma vez, encarregar-se das negociações com o FMI e os credores internacionais. Um dos planos de Lenicov seria pesificar as dívidas existentes em dólares, ou seja, passar para pesos as dívidas atualmente na moeda americana. Com esta medida, o novo governo prepararia o caminho para uma eventual desvalorização da moeda nacional. Outra medida em estudo era a desvalorização do peso. A idéia indicava que o novo governo pretenderia mudar a conversibilidade econômica atual, que estabelece a paridade um a um entre o peso e o dólar, para uma nova paridade, que seria de US$ 1 para 1,40 peso. As medidas seriam anunciadas somente na sexta-feira. Leia o especial

Agencia Estado,

01 Janeiro 2002 | 22h37

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.