Dissidente chinês defende todos nós

O Nobel da Paz dado a Liu Xiaobo é lembrete de que a voz do povo não está nas manifestações arbitrárias do Estado

Natan Sharansky / The International Herald Tribune, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2010 | 00h00

Há 35 anos, o comitê norueguês responsável pelo Prêmio Nobel decidiu entregar seu mundialmente conhecido prêmio da Paz ao dissidente soviético e ativista de direitos humanos Andrei Sakharov. Nas semanas que se seguiram ao anúncio, seu nome tornou-se objeto de obsessiva ridicularização na televisão e nos jornais da União Soviética, em declarações feitas por "representantes da classe trabalhadora" e em todos os outros veículos por meio dos quais o regime dava a conhecer a unânime "vontade do povo".

Durante aqueles dias difíceis, tomei um táxi até a casa de verão de Sakharov. Somente no caminho de volta o motorista percebeu quem tínhamos acabado de visitar, tornando-se agitado e impaciente. Quando finalmente desci do táxi, o chofer voltou-se para mim, devolveu o dinheiro que eu lhe havia entregue e disse: "Desejo sorte a você e ao seu amigo." Cantando os pneus, ele se foi.

O anúncio de que o estudioso chinês e ativista defensor da democracia Liu Xiaobo era o ganhador do Prêmio Nobel da Paz de 2010 é um lembrete de que a voz do povo não pode ser encontrada nas delirantes declarações públicas do regime, mas entre os nervosos motoristas de táxi e dissidentes anônimos.

Hoje, como naquela época, a reação ao prêmio foi marcada por queixas e ameaças por parte do governo. O ministro chinês de Relações Exteriores chamou o anúncio de "profanação" do Nobel, rotulou Liu como "criminoso" e disse que a decisão prejudicaria as relações da Noruega com a China.

Enquanto Pequim mostrava ao mundo sua indignação, o regime chinês trabalhou desesperadamente para garantir o silêncio doméstico. A mídia e os principais sites de notícias da internet não faziam menção ao primeiro Prêmio Nobel entregue a um chinês. De acordo com relatos da imprensa, até a CNN foi bloqueada sempre que o nome de Liu era mencionado, assim como ocorreu com as mensagens de texto dos celulares e os fóruns da internet contendo termos como "Prêmio Nobel da Paz".

No Ocidente, comentaristas questionaram abertamente a prudência da decisão do comitê do Nobel, sugerindo que ela não serve à causa da paz mundial por perturbar ainda mais as já problemáticas relações da China com os países ocidentais. Eles se perguntam: qual é a relação entre a defesa dos direitos democráticos feita por Liu e a missão do comitê do Nobel de promover a paz mundial? Será que os chineses estão prontos para o estilo de democracia defendido por Liu? O regime é outro, o dissidente é outro, mas a história é a mesma.

Isso ocorre com todas as ditaduras. Para sobreviver, um Estado autoritário precisa dominar o discurso público e empregar vasta energia para policiar aquilo que é dito e quem o diz. Ainda assim, apesar de seus esforços, o tempo sempre trabalha contra. A cada ano, um número cada vez maior de cidadãos toma consciência da crescente discrepância entre a retórica do regime e a sua própria realidade política. Com a queda na sua popularidade, o regime precisa utilizar níveis cada vez maiores de dissimulação para manter o poder, erodindo assim ainda mais o apoio popular.

Preso neste ciclo, o regime recorre à arma mais infalível na luta para defender seu domínio - uma ameaça externa, real ou imaginária, capaz de unificar o povo e justificar medidas draconianas de segurança aplicadas em casa. É este o motivo pelo qual a tensão entre as nações está intrinsecamente associada à opressão e à instabilidade dentro de um país.

Em comparação à situação da União Soviética de quatro décadas atrás, os chineses de hoje contam com um vasto acesso a notícias e informações a respeito do próprio país e governo. A KGB não foi capaz de censurar panfletos caseiros; como poderá a China censurar a internet? Isso está obrigando Pequim a investir uma quantidade cada vez maior de recursos numa corrida frenética para manter o controle sobre o debate público. Sentindo-se ameaçado a partir de dentro, o regime se tornará mais e mais obcecado com a ideia de não demonstrar fraquezas ao mundo exterior. A liberdade doméstica é a única cura garantida para a tendência de mergulhar numa espiral beligerante apresentada pelos regimes autoritários. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

FOI DISSIDENTE SOVIÉTICO E PRISIONEIRO POLÍTICO. ATUALMENTE É POLÍTICO ISRAELENSE E AUTOR DE LIVROS COMO "THE CASE FOR DEMOCRACY" (A DEFESA DA DEMOCRACIA)

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.