Dissidente mantém críticas e desafia Pequim

Hu Jia burla proibição e, em entrevista, afirma que deve ser leal a sua consciência

, O Estado de S.Paulo

28 de junho de 2011 | 00h00

PEQUIM - Contrariando as exigências do governo chinês de que ficasse em silêncio por um ano, o dissidente recém-libertado da prisão Hu Jia deu declarações ontem à rede de televisão CableTV de Hong Kong. Hu afirmou que não se calará e continuará seu ativismo "de forma cautelosa".

Hu, um dos principais ativistas de direitos humanos e críticos de Pequim, retornou para sua casa no domingo, segundo informou sua mulher, Zeng Jinyan, no Twitter, depois de cumprir uma sentença de mais de 3 anos por subversão.

O dissidente deveria enfrentar um ano de privação dos direitos políticos, o que significa a proibição de participar de atividades políticas, incluindo o veto a declarações a meios de comunicação.

Durante uma entrevista por telefone, Hu confirmou que pretende continuar sua militância e deve ser leal a sua consciência. "Meus pais me disseram: "Viva uma vida normal, não enfrente o regime, porque ele é muito cruel e viola de forma arbitrária a dignidade de seus cidadãos." Mas a única coisa que pude lhes dizer é que terei cuidado", afirmou.

Hu ganhou fama, simpatizantes e inimigos por organizar campanhas de ajuda a portadores do HIV e por acusar as autoridades chinesas de negligência com relação à aids. O dissidente sofre de hepatite B, doença agravada durante o período na prisão.

A libertação de Hu ocorreu em meio à mais recente onda de repressão contra opositores, impulsionada após a eclosão dos protestos pró-democracia em países árabes. Mais de 130 ativistas, advogados e intelectuais foram presos e interrogados desde fevereiro, segundo a ONG de direitos humanos Anistia Internacional.

A polícia chinesa bloqueou o acesso à residência do militante, dando a entender que Hu poderia estar sob alguma forma de prisão domiciliar.

Prêmio na Europa. Em entrevista ao jornal South Independent China Post, a mulher de Hu afirmou que pretende deixar a filha do casal, de 3 anos, com parentes fora de Pequim, temendo que o marido volte a ser preso a qualquer momento.

"Ela é tão pequena, quero que tenha uma vida sem preocupações pelo maior tempo possível e não encontre policiais o tempo todo", afirmou Zeng ao jornal.

O presidente do Parlamento Europeu, Jerzy Buzek, expressou satisfação com a libertação do preso político, que foi detido em dezembro de 2007 por ter participado - mediante videoconferência - de uma reunião da entidade na qual falou sobre a situação dos direitos humanos na China.

"Com um pouco de sorte, esperamos receber pessoalmente Hu Jia no Parlamento Europeu para que ele possa receber o Prêmio Sakharov para a Liberdade de Pensamento, com o qual foi agraciado em 2008, enquanto estava preso", afirmou Buzek. / REUTERS, EFE e AFP

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